86% das jornalistas já sofreram discriminação de gênero, diz estudo

86% das jornalistas já sofreram discriminação de gênero, diz estudo

Toda vez que você lê o nome de uma mulher assinando uma matéria, saiba que ela pode ter passado por poucas e boas para ter chegado (e continuar) lá. A discriminação de gênero afeta 86% das jornalistas, diz o estudo recém-divulgado Mulheres No Jornalismo Brasileiro. Esses dados podem afetar você, leitora, mais do que imagina.

Os dados apenas confirmam o que muitas mulheres jornalistas já costumam relatar no cotidiano da profissão. Por exemplo:

  • 92,3% das jornalistas que responderam a pesquisa afirmaram ter ouvido piadas machistas em seu ambiente de trabalho;
  • 73% afirmam já ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual sobre mulheres no seu ambiente de trabalho;
  • 64% já sofreram abuso de poder ou autoridade de chefes ou fontes;
  • 83,6% já sofreram algum tipo de violência psicológica nas redações (insultos verbais; humilhação em público; abuso de poder ou autoridade; intimidação verbal, escrita ou física; tentativa de danos à sua reputação; ameaça de perder o emprego em caso de gravidez; insultos pela internet; ameaças pela internet);
  • 70,2% já presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega sendo assediada em seu ambiente de trabalho;
  • 70,4% disseram já terem recebido cantadas que as deixaram desconfortáveis no exercício da profissão;
  • 1 em cada 10 jornalistas já recebeu, no exercício do trabalho, propostas ou demandas por favores sexuais em troca de algum benefício profissional ou material;
  • 46% apontaram que as empresas onde trabalham não possuem canais para receber denúncias de assédio e discriminação de gênero.

Para chegar a esses números, os pesquisadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da organização Gênero e Número dividiram o levantamento em duas etapas: qualitativa e quantitativa. Na primeira, foram entrevistadas 42 mulheres do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e São Paulo, que puderam falar sobre o assunto em grupo para se sentirem mais à vontade.

Com as informações obtidas, os pesquisadores puderam partir para a fase quantitativa, onde obtiveram 477 respostas de mulheres jornalistas que atuam em 271 veículos diferentes por meio de um questionário eletrônico.

O que você, leitora, tem a ver com isso?

Com tantas intervenções no trabalho da jornalista, a informação pode chegar na leitora já contaminada e prejudicada por vieses machistas. “Há prejuízo informativo para o público, seja pela resistência a determinados temas dentro das redações ou pela forma tradicional como temas relacionados à mulher e gênero são enquadrados – de um jeito muito enviesado”, resume Verônica Toste, pesquisadora principal do estudo.

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Verônica conta que, muitas vezes, a jornalista tem que lidar com a intervenção excessiva dos editores em matérias sobre questões de gênero. “Ele modifica o vocabulário, muda frases inteiras para reenquadrar aquela matéria em um modelo tradicional.”

Dificuldades na carreira da jornalista mulher

53,4% das entrevistadas acreditavam ter menos oportunidades do que seus colegas homens nas empresas em que trabalham, o que dificulta a ascensão profissional. A situação de discriminação mais relatada foi a distribuição de tarefas conforme o gênero dos jornalistas, seguida por obtenção de promoção no emprego, oportunidade de trabalho, obtenção de aumento e, por fim, determinação de escalas de horário.

Seja você jornalista ou não, talvez se identifique com alguns dos relatos que os pesquisadores ouviram na fase qualitativa:

  • “Eu tive um colega na mesma posição que eu, antes de eu ter o cargo de chefia, com o salário muito mais alto por ele ser o homem da família. Então, eu não podia ganhar mais do que ele porque ele sustentava a casa. Então, ele precisava ganhar mais do que eu.”
  • “[No jornal X] as mulheres não tinham o direito de colocar os maridos no plano de saúde porque os maridos precisam ganhar mais, porque eles sustentam a casa.”
  • “Quando o colega homem fala, parece que tem mais garantia nisso. Quando a gente vai apresentar uma coisa tem que estar com todas as provas na mesa para mostrar que aquilo deve ser levado em conta.”
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Frase dita por uma participante do estudo durante a pesquisa qualitativa

Para se defenderem nessas situações, muitas mulheres acabam “se masculinizando”, deliberadamente ou não. “Isso acontece em várias empresas, não só jornalísticas, que costumam valorizar o masculino. Assim, essa acaba sendo uma estratégia de ascensão, autoproteção e obtenção de respeito. Essas mulheres se apresentam de uma maneira que não as exponha a discriminações e estereótipos”, explica Verônica.

Jornalista e mãe?

Ter filhos é especialmente tabu no meio jornalístico, ao menos para as mulheres. “Eu já ouvi em proposta de emprego: ‘Você não quer ter filho, né? E, se quer, para quando?’ Eu já ouvi isso em processo seletivo.”

“Por estar há três anos no jornal e fazendo uma pauta bem pesada, achei que era um bom momento para pedir um aumento. Apenas ouvi: ‘Você veio me pedir um aumento com esse barrigão?’”, relatou outra jornalista, então, grávida.

Segundo Verônica, 85% das participantes da pesquisa online não têm filhos menores de 18 anos. “É uma questão estrutural do mercado de trabalho em geral, mas é mais aguda no jornalismo, que é um campo estruturado em torno de determinadas rotinas e exigências de tempo e disponibilidade que excluem as mães”, conta.

Por isso, para lidar com a dupla jornada, Verônica diz que as mães acabam em subempregos, que permitem maior conciliação, mas penalizam sua carreira. “Como, normalmente, as chefias são masculinas, não existe um respeito organizacional para que seja cumprido o horário de trabalho regular. No jornalismo, se opera como se as pessoas estivessem eternamente disponíveis.”

Assédio dentro e fora das redações

Não é por um acaso que o tema mais mencionado e comentado pelas participantes dos grupos qualitativos foi o assédio sexual. Ser alvo de piadas machistas e/ou de cunho sexual ou comentários sobre sua honestidade e moral sexual também faz parte do cotidiano das jornalistas entrevistadas.

Há, ainda, problemas na segurança no exercício da profissão.

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Frase dita por uma participante do estudo durante a pesquisa qualitativa

Perguntadas se “Alguma vez em exercício da sua profissão alguém tocou ou apoiou em partes do seu corpo sem seu consentimento”, 32,5% das mulheres disseram que sim. 12,2% das mulheres afirmaram, ainda, que colegas, superiores, fontes ou desconhecidos já tentaram beijá-las sem seu consentimento.

As profissionais também descreveram formas cotidianas de controle do seu comportamento, aparência e vestuário. “Com a roupa que eu estou hoje, numa sessão da plenária do Supremo, eu não sentaria na primeira fileira porque eu estou de saia. E eu já fui retirada da primeira fileira por estar de saia, porque atrapalharia a TV Justiça e desconcentraria os Ministros”, afirmou uma jornalista aos pesquisadores.

“Mulheres No Jornalismo Brasileiro”: o lado bom

Por incrível que pareça, o estudo da Abraji e da Gênero e Número mostra um lado positivo: as jornalistas estão mais conscientes em relação aos problemas de gênero no mercado.

“Eu intuo que, se tivéssemos feito uma pesquisa há pouco tempo, o índice de respostas afirmativas em perguntas sobre assédio seria menor. Situações antes naturalizadas estão se tornando visíveis. As mulheres estão atentas”, comemora.

Para os veículos, os pesquisadores recomendam algumas lições de casa, como produzir cartilhas para funcionários sobre assédio, organizar grupos de monitoramento da diversidade de gênero nas redações, investir na capacitação de todos os repórteres em temas de diversidade, criar um canal de comunicação interno para que vítimas de abuso e assédio possam fazer a denúncia formal, orientar os repórteres sobre o assédio que possa ser cometido por uma fonte e encarar como pautas relevantes todas as investidas inapropriadas de fontes sobre jornalistas mulheres.

“Estampar o assédio às trabalhadoras, bem como dedicar espaço a reportagens sobre diversidade de gênero é um passo importante para desestimular o abuso”, orientam.

Para ter acesso ao estudo completo, clique aqui.

Fotos: Fotolia e Reprodução/Mulheres No Jornalismo Brasileiro

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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