Cartão de crédito: como lidar com as novas regras do rotativo

Cartão de crédito: como lidar com as novas regras do rotativo

Quem não conseguir pagar o valor integral da fatura do cartão de crédito precisará ficar atenta às novas regras da modalidade. A partir de hoje, a pessoa não poderá mais deixar a sua dívida rolando no rotativo por mais de 30 dias. Apesar de essas mudanças tentarem conter o endividamento e a inadimplência causadas por essa modalidade de crédito – com as taxas de juros mais altas do mercado -, a forma como as regras estão sendo colocadas vai exigir muita cautela por parte da consumidora.

As novas regras preveem que a pessoa só poderá pagar o valor mínimo da fatura uma vez. No mês seguinte, os bancos deverão oferecer opções para quitação daquela dívida – seja por meio do pagamento integral, parcelamento específico do cartão ou de outra modalidade de crédito. Espera-se, com isso, baixar os juros do crédito rotativo que, em fevereiro, ficaram em 481,5% ao ano, segundo dados do Banco Central. A grande questão é que não ficaram claras quais condições os bancos devem oferecer aos consumidores, em relação à taxa de juros e prazo de parcelamento, por exemplo.

Ainda que veja as mudanças nas regras do rotativo como importantes, a economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ione Amorim, pontua algumas fragilidades na medida. “Debater o endividamento por cartão de crédito é muito importante, mas essa medida ainda não atende plenamente a essa condição, ela precisa ser aprimorada.”

No mês passado, o Idec enviou uma carta ao Banco Central pedindo esclarecimentos sobre alguns pontos da medida e reforçando a importância de adotar regras que disciplinem o mercado de maneira uniforme. Em resposta ao órgão, o Banco Central afirmou que irá monitorar a implantação da medida e, se necessário, aprimorá-la.

Entre as pontuações colocadas pelo Idec estão:

Falta de padronização nas regras

As novas regras colocam a impossibilidade de a pessoa permanecer no rotativo por mais de 30 dias. Fora isso, não há definição de como se dará o gerenciamento dos saldos e quais possibilidades de parcelamento o banco deverá oferecer à consumidora. “A norma permite que cada banco crie suas próprias regras e isso pode trazer dificuldades para as pessoas acompanharem as suas dívidas”, coloca Ione.

Até agora, o Banco do Brasil colocou que as taxas do rotativo passarão a variar entre 1,92% a 9,79% ao mês e as do parcelamento entre 1,91% e 9,38% ao mês. O Itaú informou taxas de 1,99% a 9,9% ao mês no rotativo e entre 0,99% e 8,9% ao mês no parcelamento. O Bradesco anunciou um pagamento parcelado com taxas de 3,6% a 9,8% ao mês e Santander de 2,99% a 9,99% ao mês.

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Complexidade de administrar a dívida

Como não há padronização sobre quantidade de parcelas, incidência de juros e afins, caberá a consumidora ficar atenta às possibilidades oferecidas pelo banco e avaliar qual delas é mais vantajosa para ela. Se não forem tomados os devidos cuidados, portanto, a ideia de evitar o efeito bola de neve não se concretizará.

Para se ter uma ideia: imagine que você está com um fatura de R$ 1.000 em mãos e decide pagar o valor mínimo em abril: R$ 150. Em maio, você não poderá mais utilizar o rotativo nessa dívida, então precisará decidir o que fará com o valor restante, que, após um mês de incidência de juros a 10% ao mês, por exemplo, chegará a R$ 935. Agora, vamos supor que nesse mês você tenha gastado mais R$ 1.000. Seu novo saldo devedor é, então, de R$ 1935.

Você não poderá simplesmente deixar a dívida rolar e precisará analisar as opções oferecidas pelo banco (de pagamento mínimo, quitação imediata e parcelamento). No mês seguinte, um novo cálculo precisará feito. E assim por diante. Além disso, se optar por um parcelamento de vários meses, você continuará lidando com uma dívida longa pela frente e sentindo os efeitos dos juros compostos sobre o saldo devedor. Entendeu como pode ficar difícil monitorar o que deve?

“Até para quem tem familiaridade com a área é difícil fazer esses cálculos, imagina para a consumidora leiga? Nossa preocupação é que a possibilidade de parcelar a compra todos os meses traga uma situação semelhante ao rotativo, na qual a pessoa se perde no pagamento de juros”, explica Ione.

Parcelamento automático

Além disso, algumas instituições já estão divulgando que farão o parcelamento automático do saldo, caso o consumidor não se manifeste até o vencimento da fatura. O Idec alerta que esse mecanismo pode induzir a pessoa a simplesmente parcelar a dívida em vez de quitá-la, sem avaliar as condições oferecidas.

“Se preferir outra opção de pagamento, a consumidora precisará se manifestar. Ficamos receosos que, pela correria do dia a dia ou por falta de educação financeira, as pessoas apenas aceitem o parcelamento automático, o que mantém o problema de endividamento e a lógica do rotativo”, explica Ione.

Como lidar, então, com as novas regras do rotativo?

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Busque informações

A primeira dica da economista do Idec é que a consumidora busque entender como se darão as novas mudanças, por meio, por exemplo, do noticiário, informes das instituições financeiras e órgãos de apoio ao consumidor. Só entendendo o que está mudando você poderá fazer a melhor escolha para o seu bolso.

Não espere o vencimento para decidir como agir

É importante também que, antes da data do vencimento da fatura, a consumidora já faça uma avaliação da sua situação financeira e decida como pagará aquele valor. A quitação integral deve ser sempre a primeira opção, mas, se em uma situação pontual, você perceber que precisará do parcelamento, é fundamental analisar as possibilidades. “É preciso ter em mente que se, após um mês do uso do rotativo, você não quitar a fatura ou optar por alguma alternativa de parcelamento, já estará inadimplente. Por isso, é preciso planejamento.”

Pesquise as opções

Se precisar fazer o parcelamento, procure o seu banco para negociar taxas. Lembre-se de que você também pode verificar a possibilidade de assumir outra linha de crédito, mais barata, para quitar a dívida do cartão de crédito. Fazer uma busca em outros bancos também é uma opção, pois a portabilidade da dívida pode ocorrer.

Pare de usar o cartão temporariamente

Enquanto estiver pagando o parcelamento, coloque o cartão de crédito na gaveta e esqueça dele até a quitação da dívida. Essas novas compras apenas irão complicá-la ainda mais financeiramente.

Se for adiantar o pagamento das parcelas, traga a dívida a valor presente

Fez uma opção de parcelamento e percebeu que irá conseguir adiantar os pagamentos? Procure o seu banco e peça para que o saldo devedor seja trazido a valor presente. Ou seja, que sejam descontados os juros futuros. “Quem antecipa parcelas tem esse direito”, orienta Ione.

Evite ao máximo não pagar o valor integral da fatura

Esta é a regra de ouro: não importa quais sejam as regras do rotativo, o pagamento integral da sua fatura sempre será a melhor opção para sua vida financeira. “A pessoa precisa ter consciência de que a sua capacidade de pagamento é a sua renda e não o limite do cartão”, orienta Ione. Por isso, planeje-se antes das compras e não assuma dívidas maiores do que pode pagar.

 

Fotos: Shutterstock

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Mariana Ribeiro

Jornalista com sotaque e alma do interior. Longe das finanças, passa o tempo atrás de música brasileira, rolês baratos e ônibus vazios. Acredita que o mundo seria outro se as pessoas tentassem se ver.
Fale comigo! :) mariana@financasfemininas.com.br

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