Dona de casa: por que ela é tão desvalorizada?

Dona de casa: por que ela é tão desvalorizada?

Ir ao supermercado, fazer compras, cuidar das contas, levar o filho à escola, manter as roupas em dia… Dentre incontáveis funções, donas de casa preenchem o seu dia com um longo checklist. O reconhecimento das horas empregadas em fazer o lar andar, entretanto, não costuma vir na mesma intensidade do esforço colocado nas tarefas.

“Vivemos numa sociedade cada vez mais materialista, na qual o valor atribuído às pessoas, em grande parte, se dá em função de riquezas, posses, status, influência e poder. Como o trabalho feito em casa não agrega o devido valor a quem o realiza, há uma invisibilidade das funções realizadas por essas mulheres”, afirma a professora de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, Marineide de Oliveira Aranha Neto.

A decisão de ficar em casa não foi fácil de ser tomada por Francisca Maria de Araujo, de 57 anos. Para cuidar de cinco filhos, agora adultos, Francisca precisou revezar-se entre períodos de trabalho externo e doméstico durante a vida. “Quando as crianças eram pequenas, eu tinha muita coisa para fazer e ficava, ao mesmo tempo, com um pé dentro e outro fora de casa. Em parte desse período, inclusive, trabalhei como vendedora, para ter mais liberdade de horário”, conta.

Vinda do Ceará para São Paulo aos dezessete anos, a confeiteira lutou por qualificação: terminou o ensino médio, já trabalhou em escritório, cantina de escola, como vendedora, costureira e confeiteira – área em que se especializou. Para ela, a decisão de ficar em casa veio “muito mais por necessidade do que escolha”.

“Quando trabalhamos fora, somos vistas de outro jeito, estamos sempre atualizadas, aprendendo coisas novas, fazemos amigos, sendo chamadas para novos empregos… Já dentro de casa, as pessoas não veem tudo que estamos fazendo, não enxergam a mãe e a esposa como uma mulher qualquer, com todas as suas necessidades. Só enxergam as obrigações”, relata. A visibilidade no contexto doméstico muitas vezes só é obtida por meio daquilo que não foi realizado: como uma roupa não lavada ou um jantar que não ficou pronto no horário. A falta de “fim de expediente” nesse cenário também fica muito clara.

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Mesmo com os avanços em direção à igualdade de gêneros, Marineide defende que essa desvalorização ainda vem da crença de que o trabalho doméstico é obrigação da mulher. Nessa visão, quem está cumprindo o seu ‘dever’ não precisa ser ‘louvado’ por isso. “Já ocorreram importantes transformações no papel e na posição da mulher em nossa sociedade nos últimos anos, porém essas mudanças não foram profundas o suficiente para garantir uma condição de igualdade entre homens e mulheres, seja nos espaços públicos, organizações ou mesmo no espaço privado do lar.”

Casada há 36 anos, desde 2014 Francisca trabalha como confeiteira exclusivamente dentro de casa. Assim, consegue tempo também para dar atenção ao marido, hoje doente. Sempre procurando atualizar-se na área, a profissional busca também a sua independência financeira: ponto sensível para muitas donas de casa, que perdem parte da sua autonomia na tomada de decisão por se sentirem dependentes dos recursos de terceiros. “Quando não trabalhamos fora, a família não lembra que você está se dedicando a ela e também precisa de um dinheiro seu. Isso é muito difícil. Gosto muito de ter meu próprio dinheiro. Isso é muito importante para a mulher”, defende Francisca.

Reflexos da desigualdade de gêneros, a visão do trabalho doméstico e a divisão de tarefas entre homens e mulheres ainda tem muito a evoluir. “A mulher, se não trabalha fora, não é valorizada e, se está no mercado, disputa de forma desigual espaços em posições mais estratégicas. Quando assume duplas jornadas, essa diferença volta a se manifestar”, defende Marineide. Seja dentro ou fora de casa, portanto, a luta por igualdade e valorização feminina diz respeito a todas.

 

Fotos: Shutterstock

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Mariana Ribeiro

Jornalista com sotaque e alma do interior. Longe das finanças, passa o tempo atrás de música brasileira, rolês baratos e ônibus vazios. Acredita que o mundo seria outro se as pessoas tentassem se ver.
Fale comigo! :) mariana@financasfemininas.com.br

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