Ela criou um espaço para acolher mães solo enquanto criava seu filho sozinha

Ela criou um espaço para acolher mães solo enquanto criava seu filho sozinha

Quem vê a Casa das Crioulas e sua orgulhosa fundadora, a empreendedora social Manoela Gonçalves, pode não imaginar tudo o que ela passou até concretizar seu projeto – ter um espaço de acolhimento, apoio e co-criação entre mães autônomas, também chamadas de mães solo ou, em uma expressão inadequada, “mães solteiras”.

Quando engravidou do pequeno Manolo, hoje com 8 anos, Manoela viu a crença de que teria uma “família de propaganda de margarina” ruir quando contou a notícia ao genitor. “Cada ‘se vira’ que eu ouvi me levou a assumir a autonomia da maternagem. Aí me descobri como feminista, pois não aceitava virar estatística de mulher abandonada”, diz ela, hoje com 33 anos.

Nasce a Casa das Crioulas

Então, ela teve de se virar como podia para sustentar seu filho. “Pulava de emprego em emprego porque não tinha patrão que aceitasse que eu tinha que buscar meu filho na creche e dar atenção para ele. Enquanto isso, o genitor estava por aí, no rolê”, desabafa.

Porém, o maior baque veio ao Manolo completar um ano, quando ela perdeu sua mãe. “Então, não tive referência materna naquele momento para criar meu filho, o máximo que pude fazer foi me lembrar como ela havia sido comigo”, conta.

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Manoela e Manolo

Como precisava trabalhar, deixou o menino na casa dos padrinhos durante seus dois primeiros anos de vida, em Cotia, cidade da região metropolitana de São Paulo. “Eu o via apenas uma vez por semana. Até que decidi que não viveria dessa maneira. Trouxe ele de volta e fui morar de favor na casa do meu pai”, relembra.

Não saía da cabeça de Manoela o dilema de como sobreviveria dali em diante, principalmente após o choque de perder sua mãe. Contudo, mesmo depois de sua partida, ela acabou ajudando a empreendedora. “Peguei as roupas que minha mãe deixou e fui vender em brechós”, relata.

Foi assim, vendendo roupas usadas, que levantou fundos para, pouco tempo depois da morte de sua mãe – e três anos depois do nascimento de Manolo, em 2013 – dar vida à Casa das Crioulas. “Ela veio para validar minha maternagem. Era isso ou voltar para empregos tradicionais, com um salário cheio de descontos porque tinha que levar meu filho ao médico”, pontua ela, que antes atuava como assessora de imprensa e, hoje, comemora poder passar mais tempo com seu menino.

O primeiro endereço do espaço era em Perus, bairro da periferia de São Paulo. “Lá, fazíamos atendimento quase paliativo, pois nenhuma informação chegava para as moradoras. Por isso, começamos a falar sobre autonomia e direitos da mãe autônoma. Só isso já valida nossa existência”, argumenta.

Além de oferecer acolhimento, a casa recebe os pedidos de ajuda das mães solo e, quando necessário, as encaminha para psicólogas e advogados. Também há o trabalho de troca de experiências, oficinas de capacitação para as mulheres que frequentam o espaço e doações para aquelas que precisam. Hoje, a associação está abrigada em uma charmosa e colorida casinha no bairro Butantã, zona oeste da capital paulista.

A Casa das Crioulas pede amparo

Sustentar um espaço desses sem ajuda, contudo, é um desafio constante para Manoela até os dias de hoje. Por isso, logo que foi inaugurado, ela também abriu dentro dele uma loja de produtos naturais. “Além de fazer a renda girar para pagar as contas, a gente ainda promove a cura para as mulheres e as ensina a se comunicarem com seus próprios corpos”, justifica.

Além disso, funciona dentro do espaço um ateliê de costura, onde são produzidas ecobags e lingeries que vão do PP ao plus size. “Elas também empoderam, pois incentivam o amor próprio”, argumenta.

A Casa das Crioulas também está em fase de captação de recursos para se manter. Por isso, Manoela abriu uma campanha no site Benfeitoria para recrutar pessoas que façam doações regulares, com valores a partir de R$ 20 mensais. Para a criadora, essa também é uma maneira de ter um contato mais próximo com aqueles que podem apoiar o espaço. Se você tem interesse em saber mais sobre a campanha e deseja fazer uma doação, acesse aqui a campanha no Benfeitoria, veja como pode ajudar e, de quebra, receber alguns mimos preparados por elas próprias.

Quase cinco anos depois

Muitas mulheres passaram pelas portas da Casa das Crioulas. “Muitas delas não voltaram porque conseguiram voar, se empoderar e recriar a vida. Recebemos muitos relatos de mulheres que abriram seu próprio negócio e hoje podem se dedicar em ouvir seu filho”, comemora.

Falando em ouvir os filhos, Manoela está empenhada em escrever um livro com os diálogos que tem com Manolo – algo que só é possível porque, hoje, graças à Casa, ela tem tempo para olhar para seu pequeno.

“Muitas vezes já pensei em desistir porque não é fácil. Mas não dá para fechar, pois nossa existência é uma resistência que inspira. É uma missão que só vai acabar quando não houver mais mães autônomas negligenciadas social, paterna, jurídica, emocional e financeiramente. Enquanto a sociedade ainda for tão desumana com essa mulher, a Casa ainda será importante”, finaliza.

Fotos: Acervo Pessoal

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Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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