Ela mudou o perfil para masculino no LinkedIn e recebeu melhores oportunidades de emprego

Ela mudou o perfil para masculino no LinkedIn e recebeu melhores oportunidades de emprego

Parece que ser mulher no mercado de trabalho nunca deixará de ser difícil. Na maioria das oportunidades de emprego, os empregadores dão preferência aos homens. Quando inseridas nas empresas, as mulheres costumam cumprir a mesma jornada por um salário menor. Há ainda os constantes assédios que sofremos no dia a dia. Isso é algo, infelizmente, muito comum.

Após receber mensagens de assediadores em seu perfil da plataforma de empregos LinkedIn, a CEO do Projeto China Millenium, na Austrália, Andrea Myles, resolveu mudar seu perfil do LinkedIn para Andrew, um homem branco, de 55 anos, CEO masculino de uma plataforma que promove a inovação na China e na Austrália. Confira seu relato, publicado originalmente na Mumbrella!

Por que eu mudei meu perfil do LinkedIn de Andrea para Andrew

Era uma manhã como qualquer outra. Eu acordei e, ao checar o celular, vi uma nova mensagem: “Ei linda, espero que você não se importe, mas eu tive que dizer ……” Eu fiquei muito chateada. Você pode até enxerga isso como um flerte fora de hora, talvez um elogio. Qual era o problema? Eu deveria simplesmente bloquear o cara e seguir em frente, certo?

Se você olhar isso pela minha perspectiva, é mais uma pequena transgressão para adicionar à pilha. Uma pilha que subestima as mulheres, nos paga menos, nos promove menos e desvaloriza nosso trabalho. Então, fiquei encurralada na minha própria caixa de entrada. Foram assim que aconteceram 99% dos assédios sexuais que experimentei no LinkedIn.

Depois disso, decidi mudar o meu nome e a minha foto de perfil para a primeira imagem que apareceu na pesquisa do Google “CEO stock photo” – por sinal, são 24 imagens antes de aparecer a primeira mulher, sentada em uma mesa ouvindo o que fala um CEO homem. Durante a maior parte do mês, tornei-me Andrew Myles.

A partir do momento em que mudei meu nome, eu senti meu ‘poder’ subindo. Esse Andrew parecia se sair muito bem, sendo bilíngue e com 15 anos de experiência na China. A resposta online foi instantânea. Minhas próprias conexões acharam isso muito engraçado e, para ser honesta, eu também. Em uma plataforma de mídia social onde as pessoas mantêm meticulosamente a sua ‘marca pessoal’ e cultivam a presença on-line como um bonsai precioso, recebi aplausos e emojis, o que fez eu me sentir incrível e rebelde.

Ao longo do mês, comentei e postei como costumava fazer. Os mesmos assuntos especializados, o mesmo vocabulário. Eis o que notei: quando postei sobre a China ou inovação, percebi que estava sendo levada um pouco mais a sério e ninguém re-explicou meu conteúdo de volta para mim. Quando eu postei sobre a igualdade de gênero, não comentaram mais ‘homens também’, e eu ganhei muitos elogios. O algoritmo do meu LinkedIn mudou e eu estava conectada com homens de níveis mais altos em empresas reconhecidas. Apareceram mais usuários do LinkedIn que possuíam perfis escritos exclusivamente em chinês. Ataque sexual = zero! Mas eu também me senti deslegitimada em conversas sobre diversidade, e não tinha ideia de como ser parceira dos homens, já que nunca tinha feito isso antes.

Eu pensei que me sentiria no topo da pirâmide, sendo um homem velho e branco. Embora seja verdade, por ter que me explicar menos para ser melhor entendida e gastar menos energia para ser ouvida, não esperava me sentir como uma estranha em alguns dos meus tópicos de discussão regulares.

Você pode sentir que um flerte sutil online não é grande coisa, porque, isoladamente, não é. Agora estou nos meus 30 anos e posso olhar para trás em uma década e meia da experiência, e vejo que o sexismo não é uma observação única e fora de contexto. É uma tendência.

É como quando as pessoas perguntaram a Andrew ‘onde você trabalha?’ e à Andrea ‘para quem você trabalha?’. Multipliquei isso ao longo de toda a vida e tive um vislumbre da diferença que isso teria sobre como Andrew e Andrea são classificados pela sociedade.

Então, o que eu aprendi sendo Andrew? Eu me senti estranha nas conversas sobre futuro, inovação e tecnologia, gênero e diversidade. Mas, em última análise, sem assédio sexual e menos explicação para fazer, eu ainda sinto falta do Andrew, da sua sabedoria presumida e da sua vida sempre tão ligeiramente mais fácil.

Mulheres são maiores vítimas de assédio no mercado de trabalho

Possivelmente você já sofreu ou conhece alguma mulher que tenha sofrido com isso. Segundo uma pesquisa da plataforma de trabalho freelancer Workana, 74% das mulheres admitem terem sofrido algum tipo de discriminação ou assédio. A pesquisa foi realizada com 5.151 pessoas em toda a América Latina, e divulgada em 2016.

O pior é quando esse dado é sentido na pele. Por duas vezes sofri assédio pelo LinkedIn. Na primeira, recebi um e-mail em meu contato pessoal de um homem que dizia ser escocês. Após entrar em contato através do meu perfil profissional, me mandou uma espécie de carta, se apresentando e contando detalhes de sua vida. Me descreveu suas características, profissão e até comidas favoritas. Ao final, disse acreditar que Deus havia nos unido e gostaria de receber minha resposta. Algo que nunca aconteceu.

Me assustei e imediatamente denunciei seu perfil. Passados alguns meses, recebo o contato de outro homem em minha caixa de mensagens da plataforma, desta vez interessado em saber mais sobre meu trabalho. No dia seguinte, me enviou um outro recado comentando sobre detalhes do meu perfil e me exigindo atenção. O respondi cordialmente que utilizava a rede social apenas para trabalho.

linkedin-perfil

Chegou a dizer que me achou linda e falou que, mesmo eu não tendo o costume de falar com desconhecidos, o desse a chance de me mandar mensagens por telefone. Comportamento totalmente inapropriado para um ambiente profissional. O bloqueei e denunciei como assédio. O perfil dele continua ativo e a única solução que a plataforma me apresentou foi não poder mais ver seu perfil.

Solução: bloquear o usuário, apenas

O LinkedIn se denomina como uma rede social de negócios, que foi fundada em dezembro de 2002 e lançada oficialmente em 5 de maio de 2003. O objetivo é criar conexões entre profissionais e empresas. O perfil funciona em uma espécie de currículo online, onde é permitido procurar empregos e desenvolvimento de carreira.

As regras são claras: assédio não é permitido. Porém, como em qualquer outra rede social, todos estão sujeitos a sofrer problemas dessa natureza. Na página de ajuda com a segurança, o recado é de que, se outro usuário estiver entrando em contato com você de forma repetida, é possível ajustar as configurações e evitar mensagens indesejadas, ao aumentar o seu nível de privacidade. Ou seja, bloquear o usuário ou restringir o acesso de outras empresas ao seu perfil, ao torná-lo privado. Para denunciar algum tipo de assédio, é necessário reportar à plataforma.

O Finanças Femininas tentou contato com o LinkedIn via email e pediu explicações sobre a dinâmica do algoritmo e qual a posição da rede social em relação aos assédios. Porém, não houve resposta até o fechamento desta publicação.

Fotos: Fotolia

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Gabriella Bertoni

Gabriella Bertoni

Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
Fale comigo! :) gabriella@financasfemininas.com.br

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