Elas se levantaram contra o machismo no futebol

Elas se levantaram contra o machismo no futebol

Não é de hoje que o machismo no futebol é escancarado nas arquibancadas e fora delas. Ouvimos desde pequenas que o esporte é “coisa de menino” e, para as que persistem, resta lidar com todo o preconceito. No entanto, isso não significa sofrer calada. Diversos grupos de mulheres se levantaram para lutar contra essa cultura misógina.

Mais recentemente, um deles ganhou destaque: o Grupa, coletivo de torcedoras do Atlético Mineiro (foto), por causa do escândalo envolvendo o jogador Robinho – que vestiu a camisa do clube até o fim da temporada de 2017. Ele foi condenado a nove anos de prisão por um estupro ocorrido na Itália, em Milão, em 2013. Na época da condenação – novembro de 2017 –, o atacante ainda atuava pelo clube mineiro, que não se posicionou sobre o caso.

“O que incomoda é que o silêncio do Atlético é conformista, é como se a condenação do jogador não tivesse qualquer relevância ao clube. A omissão é também aceitação”, dizem as integrantes.

O contrato com o jogador não foi renovado para a temporada seguinte. No entanto, a permanência dele no time só não aconteceu porque as negociações salariais não foram adiante. Mais tarde, o São Paulo também cogitou contratar o atacante para seu elenco, entretanto, enfrentou resistência de parte da torcida por causa da condenação – as manifestações ocorreram via Twitter com a hashtag #RobinhoNão.

“Aparecem em nossas redes sociais pessoas perguntando se temos sócio-torcedor ou se sabemos cantar as músicas”

A atuação do Grupa – que hoje soma cerca de 100 participantes – vem de antes do Caso Robinho. Em fevereiro de 2016, as integrantes lançaram uma nota de repúdio contra o Atlético Mineiro por conta do desfile feito para divulgar o uniforme feminino, no qual as modelos vestiam apenas camisa e biquíni. As etiquetas das camisas também causaram revolta por orientarem os torcedores a entregarem a peça para suas esposas e mães lavarem.

“Depois disso, fomos atacadas virtualmente e nos unimos por uma necessidade social de suportarmos juntas os ataques e de nos fortalecermos enquanto mulheres no futebol”, contam.

Piadinhas, acusações e assédio são tão frequentes que, a todo instante, elas precisam “provar” que, de fato, amam o time. “Constantemente aparecem em nossas redes sociais pessoas perguntando se temos sócio-torcedor ou se sabemos cantar as músicas. Ser mulher que participa de espaços tipicamente masculinos é ter que provar o merecimento de pertencer ao local. Assédio verbal e físico ocorre também, são cantadas, ofensas, passadas de mão e puxões.”

Luta diária contra o machismo no futebol

As mineiras não estão sozinhas na luta. Torcedoras de diversos times também se uniram na luta contra o machismo no futebol. As torcedoras do Fluminense criaram, em 2006, a Flu Mulher – primeira torcida exclusivamente feminina do Brasil, com objetivo de diminuir o preconceito e aumentar o número de mulheres nas arquibancadas. O time também tem a Bravas da 52, uma subdivisão feminina da torcida organizada Bravo 52.

Em São Paulo, as mulheres do Movimento Toda Poderosa Corinthiana celebram a torcida feminina todos os dias em sua página no Facebook, onde publicam histórias de torcedoras reais junto ao Corinthians. Em seu manifesto, elas declaram: “Queremos transformar o Corinthians e a sua torcida em um ambiente de igualdade e respeito com as mulheres, pois, mesmo que alguns insistam em negar, somos o Time do Povo, o qual, desde sua fundação, em 1910, briga contra a segregação e a exclusão das minorias.”

Já o movimento Palmeiras Livre se descreve como “anti-homo e transfobia, contra o racismo e todo tipo de sexismo (os machismos e misoginias em especial)” em sua página do Facebook.

No Rio Grande do Sul, a Força Feminina Colorada – formada por torcedoras do Sport Club Internacional – desenvolveu ações para ajudar mulheres vítimas de violência.

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1º Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada

Unidas contra o machismo no futebol

A luta a favor das mulheres está acima das bandeiras de time para as integrantes do Mulheres De Arquibancada. O grupo é resultado do 1º Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada, evento que aconteceu no Museu do Futebol e reuniu 350 mulheres representantes de 50 torcidas, de 11 estados brasileiros.

“Disseminamos ideias, elaboramos projetos que possam ser aprovados por lei, criamos campanhas de incentivo à presença de mulheres nas arquibancadas e reforçamos a união, independente de rivalidades”, conta Carla Ambrosio, membro do movimento e torcedora do Botafogo.

O levante das integrantes não foi bem recebido entre muitas das torcidas organizadas, que chegaram a expulsar mulheres que se envolveram com o Mulheres De Arquibancada. “Quando souberam que essas meninas participavam junto a torcedoras de times rivais, disseram que elas deveriam escolher entre o movimento e a torcida organizada. As que permaneceram com a gente foram convidadas a se retirar da torcida”, relata.

A própria Carla quase foi agredida fisicamente na torcida da qual fazia parte. Por pressão familiar ou medo de retaliação, cerca de 20 integrantes acabaram deixando o grupo – em sua maioria vascaínas –, incluindo algumas das cofundadoras. Algumas chegaram a deixar de frequentar estádios por medo.

Porém, o movimento resistiu e, hoje, acumula mais de 4.300 curtidas em sua página do Facebook. O próximo encontro acontecerá em agosto deste ano, em Fortaleza, Ceará.

“Quero que as pessoas se conscientizem que não queremos superioridade em nada. O que queremos é o direito de ter o mesmo espaço que o homens possuem nas bancadas. Queremos ter voz, queremos andar do jeito que quisermos, balançar bandeira, ficar na bateria, estar na diretoria das Organizadas, poder participar até de Organizações maiores no meio futebolístico, torcermos como quisermos sem ter aceitação duvidosa e maliciosa dos homens. Queremos mostrar que mulher tem voz e vai usá-la, tendo apoio da sociedade ou não! Já basta de tanta impunidade, já estamos cansadas de termos que explicar lances de futebol apenas por sermos mulheres. Que nos respeitem como Mulheres de Arquibancada”, finaliza Carla.

Fotos: Divulgação/Grupa e Arquivo Pessoal

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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