Em tempos de crise, bancos dificultam acesso ao crédito

Em tempos de crise, bancos dificultam acesso ao crédito

Quando a jornalista Polyana Nogueira de Mattos voltou para o Brasil em 2015, depois de dois anos morando na Europa, encontrou o país em meio a uma crise econômica. Depois de conseguir um emprego e renda fixa, ela precisava começar tudo do zero no banco, partindo da abertura de uma conta corrente. Mas, de acordo com ela, o crédito para cartão que foi oferecido não era correspondente com o que ela poderia pagar e precisaria usar para se restabelecer no país.

“O banco me deu o limite mínimo, mesmo comprovando renda ‘média-alta’. Tentei diversas vezes pedir aumento, mas não tive liberação. Minha conta era muito nova e o banco precisava acompanhar minha movimentação”, lembra Polyana.

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Até aí, tudo parecia ser um procedimento normal para a jornalista. O problema veio depois, quando ela tentou comprar um carro. “Meus financiamentos foram todos negados pois, mesmo comprovando renda, minha conta bancária era muito recente”, conta.

De acordo com o professor da IBE-FGV e especialista em economia, Múcio Zacharias, todos os clientes passam por uma avaliação do banco para conseguir crédito, incluindo o acompanhamento da movimentação da conta corrente em um período de seis a oito meses. Mas, em tempos de crise, as instituições financeiras ficam mais criteriosas e é mais comum encontrar dificuldades para a obtenção de empréstimos.

“A análise que o banco faz é muito simples, é uma análise cadastral. Mas, em um momento de crise como este, o risco de inadimplência aumenta muito, por isso são adotados estes cuidados”, explica o especialista.

De acordo com um levantamento da Serasa Experian, o número de inadimplentes no Brasil chegou a 59 milhões em janeiro de 2016, o maior desde que a pesquisa foi iniciada, em 2012. Em janeiro de 2015, eram 54,1 milhões de brasileiros inadimplentes.

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Dificuldades para obtenção de acordos

Mesmo clientes de longa data podem ser barrados na avaliação dos bancos, principalmente se tiverem alguma dívida pendente. É o caso da dentista Juliana Carvalho. Apesar do histórico de pagamentos em dia, ela não consegue um acordo para quitar o primeiro excesso de compras que fez com o cartão de crédito.

“Para não deixar de pagar uma fatura do cartão de crédito, usei o cheque especial. Agora preciso de um acordo que me ajude a quitar os dois, pois a dívida ultrapassa minha renda mensal”, explica. O pedido de Juliana foi negado pelo banco em que mantém a conta e por outras instituições financeiras. “A partir do momento em que a pessoa consegue pagar suas dívidas e regularizar a situação cadastral, o banco pode negociar o empréstimo”, explica o especialista.

Sendo assim, o empréstimo ou acordo para quitar dívidas com bancos também estão mais difíceis de conseguir. Além disso, os juros creditados hoje podem ficar muito maiores do que o saldo devedor. Ou seja, a situação da tomadora do empréstimo pode ficar ainda pior.

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“Ao mesmo tempo que dificultam o empréstimo, os bancos também aumentam suas tarifas. Por isso, o custo para manter uma conta corrente está aumentando sistematicamente e também os juros nas modalidades de crédito”, argumenta Zacharias. Ele deixa ainda um alerta: “Hoje, as condições de mercado para quem toma empréstimo são as piores possíveis”.

Outro aspecto apontado pelo Serasa Experian foi que o número de consumidores em busca de crédito diminuiu em janeiro deste ano. A queda foi de 0,6% frente a dezembro e de 2,6% em relação a janeiro do ano passado.

Recorrer à Justiça pode ser um caminho

Segundo o especialista, é importante criar um planejamento financeiro estratégico para liquidar estas dívidas o quanto antes, sem fazer mais parcelamentos.

Ele alerta que a fragilidade da consumidora e a potência do banco ao fazer este tipo de reajuste na cobrança são desproporcionais. Por isso, dependendo da sua situação, você tem ainda a opção de recorrer à Justiça para renegociar.

“A composição de juros está ficando tão alta que a devedora pode ficar sem saída. Nesses casos você pode ir ao juizado de pequenas causas e pedir um reajuste de contas”, orienta Zacharias.

Fotos: Shutterstock

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