Emprestei o nome para o meu marido e ele não pagou

Emprestei o nome para o meu marido e ele não pagou

Emprestar o nome” para amigos, pais ou irmãos é um hábito comum no Brasil. O desejo de ajudar um conhecido, pena em vê-lo em uma situação desconfortável, vergonha de negar o pedido ou medo de magoar o outro são alguns dos motivos apresentados por quem aceitou a arriscada proposta de contrair dívidas para terceiros – e o risco de não receber o valor de volta ou ficar inadimplente.

A relação pessoal foi o que levou a auxiliar de cozinha J.M.N.*, de 48 anos, a ficar com o nome sujo depois de compras feitas pelo marido em seu cartão de crédito, em 2014. “Ele não tinha o nome sujo, mas usava muito o cartão dele e pediu o meu. O que aconteceu foi que ele teve problemas com um inquilino, que parou de pagar aluguel, teve que gastar com advogado e não me pagou”, conta ela.

Mesmo consciente dos riscos, a auxiliar de cozinha não foi a única a embarcar nesse bote: outros 17% dos negativados colocam o empréstimo de nome como a causa da inadimplência, mostra uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). O levantamento entrevistou 602 consumidores de todas as regiões do País e classes sociais, inadimplentes ou ex-inadimplentes entre abril de 2016 e 2017.

Relações pessoais e empréstimo de nome

Assim como ocorreu com J., a proximidade é o que costuma fazer uma pessoa acreditar que a outra irá honrar o compromisso de pagamento, explica Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC. “Antes de contrair uma dívida por outro, entretanto, é preciso ter em mente que todo o ônus será seu: você será a única responsável por lidar com uma possível negativação.” Importante enfatizar que, perante a lei, a dívida pertence unicamente a quem emprestou o nome.

Mesmo sem nenhuma garantia de que a pessoa irá pagar o que deve, quando a dívida é feita no cartão de crédito – como no caso de J. -, Calife explica que há uma facilidade maior de controlar o pagamento, já que terá a fatura em mãos. “O maior problema está, por exemplo, nos financiamentos de automóvel ou crediário. Nessas situações, muitas vezes quem pediu o nome emprestado fica responsável por pagar diretamente as parcelas – e a outra pessoa só fica sabendo dos atrasos quando já está inadimplente.”

Segundos os dados do SPC Brasil e CNDL, 30,9% dos entrevistados contraíram a dívida para amigos, 21,8% para irmãos, 17,9% para outros parentes e 11,7% para os pais – percentual que aumenta para 18,2% entre as mulheres.

Por outro lado, já estar com o nome sujo ou não conseguir acessar algumas modalidades de crédito, mesmo sem estar inadimplente, são os principais motivos apontados por quem pede o nome emprestado a amigos ou parentes. No segundo caso, a falta de acesso ao crédito pode acontecer pelo fato da pessoa ter um score baixo ou dificuldade de comprovar renda, por exemplo.

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A dificuldade de pagamento

No caso de J., houve uma tentativa inicial do marido de arcar com a dívida. Logo depois de atrasar as parcelas, ele procurou o banco para uma renegociação e foram definidas 4 parcelas de R$ 699 cada. Depois de um mês, entretanto, ele informou a esposa de que não conseguiria mais fazer os pagamentos. “Ele falou para eu mesma tentar pagar e virou uma confusão: eu pedindo para ele pagar e ele se negando.”

Então veio o desconforto maior para a profissional, que nunca havia ficado com o nome sujo e nem atrasado as contas: o banco cancelou o cartão, as mensagens e telefonemas de cobrança se tornaram constantes e a impossibilidade de assumir novos créditos passou a dificultar a vida. “Nesse período, meu filho passou na faculdade, no Rio Grande do Sul, e precisava comprar uma passagem para ele fazer matrícula. Sem o meu cartão, tive que pedir para uma amiga comprar pra mim. Nunca tinha feito isso, foi muito constrangedor.”

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A renegociação

Assim como 41% das pessoas negativadas por empréstimo de nome – segundo a pesquisa do SPC Brasil e CNDL -, J. decidiu dar um fim à situação e pagar de uma vez a dívida. Após cerca de seis meses de inadimplência, a auxiliar de cozinha procurou o Procon para intermediar a renegociação e pagou a dívida em uma parcela de R$ 2.791 – nesse momento o débito já ultrapassava os R$ 6 mil.

Depois de ficar com o nome sujo por uma dívida de outra pessoa, a relação pessoal dificilmente passa incólume. Nas entrevistas feitas pelo SPC Brasil e CNDL, 69% das pessoas afirmaram que os relacionamentos saíram abalados de alguma forma. J. nunca recebeu o dinheiro do marido e, mesmo tendo deixado o assunto para trás, a confiança no relacionamento nunca foi totalmente restaurada. “Depois disso, ele já me pediu novamente para fazer compras, implorou, e eu nunca mais emprestei e nem vou emprestar”, conclui

*O nome foi ocultado para preservar a identidade da fonte.

 

Fotos: Shutterstock

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Mariana Ribeiro

Jornalista com sotaque e alma do interior. Longe das finanças, passa o tempo atrás de música brasileira, rolês baratos e ônibus vazios. Acredita que o mundo seria outro se as pessoas tentassem se ver.
Fale comigo! :) mariana@financasfemininas.com.br

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