Essas mulheres da periferia criaram negócios com base em suas origens

Essas mulheres da periferia criaram negócios com base em suas origens

Morar na periferia significa abraçar cada uma das poucas oportunidades que surgem no caminho. Saber disso levou muitas mulheres a buscarem o empreendedorismo não apenas para sustentarem suas famílias, mas também se empoderarem.

Felizmente, algumas iniciativas ajudam a pavimentar esse caminho. É o caso do Fundo Zona Leste Sustentável (FZLS), criado em 2010 com o apoio da Fundação Tide Setubal e do Instituto Alana, para estimular e apoiar empreendedores que moram ou atuam no extremo leste de São Paulo.

“Percebemos que os investidores e as aceleradoras de negócios tradicionais estão muito focados na região central e acabam não vendo o potencial dos empreendedores das periferias. Por isso, geralmente esses empreendedores têm mais dificuldade de acesso ao crédito para seus negócios”, diz Greta Salvi, coordenadora do Fundo.

A ajuda vem por meio de capacitação, microcrédito e mentoria, adquiridos com a realização de editais. Já foram realizadas cinco edições, onde foram contemplados 36 projetos nas áreas de culinária, moda, reciclagem, entre outras. “Desde 2015, o Fundo tem atuado para também estimular o conceito de negócios de impacto na região, com a identificação e o apoio a empreendimentos que visam o desenvolvimento territorial e a solução de problemas em comunidades de baixa renda, por meio de parcerias, suporte à gestão ou capacitação”, acrescenta.

Essa ajuda tem sido mais do que bem-vinda para algumas mulheres que enxergaram a oportunidade de se empoderarem e criarem negócios que trazem muito de suas origens. Conheça algumas histórias inspiradoras a seguir.

Cozinha de raiz

Do fogão de casa, ainda na infância, até a faculdade de gastronomia, o amor de Priscila Aparecida Novaes pela culinária só aumentou ao longo do tempo. Depois de formada, ela começou tímida, atendendo a pequenos pedidos para festas de familiares, até que o negócio expandiu e deu origem à Kitanda das Minas.

Priscila classifica sua empresa como um afro buffet, que trabalha com gastronomia afrobrasileira em eventos empresariais, cafés da manhã, almoços e jantares, além de promover oficinas e diálogos. Porém, para ela, a raiz é muito mais profunda. “A Kitanda tem a ver com minha ancestralidade, militância de gênero e de raça. Resgatamos a história das quitandeiras, mulheres negras que vieram do período colonial escravocrata que usaram a gastronomia como estratégia de sobrevivência, para articular revoltas e angariar fundos para pagar cartas de alforria”, resume. O nome, inclusive, é uma homenagem à nação africana de Mina, de onde vinha a maior parte das quitandeiras.

A empreendedora foi contemplada este ano pelo Fundo Zona Leste Sustentável e, com o microcrédito, pretende trazer outras mulheres para trabalhar consigo. Por enquanto, apesar de morar em Cidade Tiradentes, Priscila atua em São Miguel Paulista, mas seu plano é criar um modelo de negócio para montar a Kitanda em outros lugares.

“Quero que outras mulheres tenham acesso. Então, preciso estruturar bem o negócio. Nunca tivemos espaço aberto e o objetivo agora é fazer isso, assim, outras pessoas poderão provar nossa comida e serviremos de modelo para incentivar outras mulheres”, ressalta. Além da renda com o buffet, Priscila também lançou recentemente o livro Ajeum – O Sabor das Deusas, que fala sobre a relação entre as mulheres, a cozinha, a cultura e a religião africanas.

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Priscila Novaes, da Kitanda das Minas

Para ela, a parte mais gratificante de seu trabalho é perceber como a cozinha ancestral não apenas a empoderou, mas tem feito isso há gerações. “Consigo não apenas atuar na cozinha, mas também mostrar como essas cozinheiras foram importantes. Muitas mulheres ganham a vida na cozinha, mas não sentem que são valorizadas. Eu mesma tinha vergonha de dizer que queria cozinhar. Mas hoje quero mostrar para outras mulheres que o que elas gostam e fazem é importante, sim.”

Arquiteta de bolsas

Costurar é uma herança muito especial para Laís Dória de Santana (foto de abertura), fundadora da marca de bolsas e acessórios Lúcia in the Sky e uma das contempladas pelo FZLS. Quando sua avó morreu, quando Laís tinha 15 anos, a sergipana pediu para ficar com sua máquina e caixinha de costura – e logo começou a produzir algumas peças para si mesma.

Ainda em Sergipe, se formou em arquitetura e coordenou um projeto de costura e reaproveitamento de materiais. Em 2013, veio para São Paulo e foi convidada para trabalhar em uma loja que produzia bolsas para bicicleta (alforjes). “Eu costurava e ficava sorrindo, sentia uma sensação de prazer ao costurar. Foi assim que percebi que realmente gostava disso e decidi fazer um curso”, conta.

A partir daí, o negócio só expandiu – o suficiente para Laís já batizar a marca. O nome homenageia ninguém menos que dona Lúcia, avó da empreendedora, que deu origem a toda essa história.

O grande diferencial da Lúcia in the Sky é desenvolver mochilas e acessórios específicos para algumas profissões, como fotógrafos e estudantes de gastronomia. “Quando comecei, fazia apenas um modelo de mochila. Então, um amigo me pediu uma bolsa para guardar equipamento fotográfico. Desde então, trabalho com produtos que as pessoas sentem falta, como estojo de facas para quem trabalha com cozinha”, aponta.

Apesar de não morar na Zona Leste, Laís foi contemplada pelo FZLS graças ao seu trabalho como coordenadora de um projeto onde dava aulas de costura para mulheres da União de Vila Nova, bairro da região. “Pretendo ter as ex-alunas como parceiras da marca, pois criamos um vínculo muito forte. Por isso, o crédito veio em boa hora. Estou me organizando para fazer isso acontecer e fomentar o crescimento da região”, comemora.

Seu espírito de costureira faz com que Laís brinque: “Nunca fui arquiteta. Sou arquiteta de bolsas. Minha maior satisfação é atender as necessidades de pessoas que carregam suas paixões na bolsa e têm uma relação de amor com esses produtos e materiais.”

Empreendedora convicta

Assim como milhares de brasileiros, Joseilda do Nascimento Silva tomou o caminho do empreendedorismo depois de uma demissão inesperada – um mês depois de voltar de férias. A decepção foi tão grande que decidiu que não trabalharia para mais ninguém, apenas para si mesma. “Fiz um bolo para as amigas das minhas filhas e elas gostaram. Então elas começaram a vender meus bolos e tortas salgadas dentro do condomínio mesmo”, relata ela, que mora em um conjunto de aproximadamente 300 casas no Bairro dos Pimentas, periferia de Guarulhos.

O sucesso por causa das recomendações boca-a-boca foi tão grande que as pessoas de fora também começaram a fazer encomendas para festas – inclusive de bairros da Zona Leste como São Miguel Paulista, onde hoje se concentra a maior parte de sua clientela. “No começo eram bolos simples. Não eram muito bonitos porque eu não tinha prática, mas graças a Deus eram bem gostosos. Por isso, fui procurar aprender.”

Alguns cursos depois, Joseilda hoje se especializou em fazer coffee breaks com produtos saudáveis produzidos por ela mesma – como pães de legumes e lanches vegetarianos e veganos – e aniversários infantis e adultos. Assim surgiu a Doce Sensação.

Com o dinheiro do Fundo, a empreendedora sonha em ter uma cozinha mais ampla. “Moro em uma casa alugada, não muito tenho espaço e deixo minhas coisas em um cômodo. Esse ano estou trabalhando para construir minha cozinha industrial, comprar alguns equipamentos e financiar os demais”, visualiza.

Apesar de sua escolha ter sido movida pela revolta – e não apenas pela necessidade, como acontece em muitos casos –, Joseilda aconselha o caminho do empreendedorismo para todas que estão em situação parecida com a que ela estava quando tomou a decisão de abrir a Doce Sensação. “Hoje tenho tempo para minhas três filhas. Têm obstáculos, sim, o trabalho dobra, mas para mim é muito bom ver as pessoas comendo o que eu faço com tanta dedicação”, finaliza.

Fotos: Divulgação

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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