“Fiz uma dívida para ajudar meu pai”

“Fiz uma dívida para ajudar meu pai”

Aquela velha máxima de que “quem ama, cuida”, não vale apenas para os casais apaixonados. Seja um parente, um amor ou um amigo, sempre queremos dar o melhor de nós para as pessoas com as quais nos importamos. Porém, quando o cuidado envolve questões financeiras, uma série de tabus podem aparecer.<

Ajudar uma pessoa próxima que passa por uma crise financeira é admirável, mas até que ponto essa ajuda deve ir? O grande dilema com situações que envolvem relações pessoais e assuntos financeiros é o quanto pesa o fator emocional em decisões que deveriam ser racionais. Afinal, se você ajuda quem gosta fazendo mais do que realmente pode, o resultado será não só uma, mas duas pessoas endividadas.

Para falar sobre assunto, o Finanças Femininas conversou com quem viveu isso na pele e ainda sofre as consequências de ter passado da conta na hora de ajudar um parente. Para preservar os envolvidos na história, ela aceitou conversar conosco em anonimato. Há cinco anos lutando para reconstruir sua estabilidade financeira, depois de passar um longo período auxiliando o pai financeiramente, a profissional de relações públicas, hoje com 32 anos, conta o que aprendeu com toda a experiência.

A mudança na família

A realidade da RP começou a mudar quando o pai dela ficou desempregado, aos 56 anos. Ela conta que ele teve dificuldades em se reposicionar no mercado de trabalho e inicialmente passou a ajuda-lo nas contas domésticas. Nesta época, o pai dela vivia com a madrasta e dois filhos pequenos. A situação se agravou rapidamente porque o pai havia trabalhado durante todo este tempo como pessoa jurídica, então não recebeu os benefícios que teria se fosse em regime CLT.

“Ele chegou a usar um fundo para ajudar nas contas, mas logo começaram a acumular muitas coisas para pagar. Como ele não conseguia recolocar-se no mercado, minha ajuda passou a ser cada vez mais constante”, relata.

Como forma de contornar a situação, o pai dela, que é imigrante, resolveu tentar a vida fora do país, ajudando nos negócios da família em seu país de origem. Para fazer isso, foi preciso novamente contar a colaboração da filha. “Eu tinha um carro quitado e ele tinha acabado de financiar um outro mais novo e mais moderno. Não queria desfazer-se do carro, então me convenceu a vender o meu e ficar com o dele, já que iria viajar. Fiquei relutante no início, porque eu ganhava R$ 2.400 e as parcelas eram quase metade do meu salário”.

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Além de ter assumido uma nova dívida sem necessidade, quase todo o dinheiro da venda do carro foi usado para custear as despesas com manutenção, além de cerca de US$ 1.500 dólares que ela deu ao pai para viabilizar a viagem.

O projeto dele, no entanto, não deu certo e foi preciso voltar ao Brasil depois de seis meses. Novamente a relações públicas se viu em maus lençóis, tendo em vista que aceitou devolver o carro ao pai para que ele pudesse cuidar da rotina com os filhos. A solução arrumada na época foi parcelar a compra de um terceiro carro, em uma negociação acertada com um outro parente, porém com uma parcela mais barata. “Meu pai pegou o carro dele de volta e eu fiquei pagando este outro”.

O desfecho foi ainda pior porque o parente em questão desentendeu-se com a família do pai dela e resolveu tomar o carro de volta. “No fim das contas eu vendi meu carro quitado, paguei mais da metade de um novo carro e fiquei sem nenhum”.

Reorganizando a vida

Cinco anos depois de toda essa confusão, a RP luta para limpar o nome, deixou de usar cartão de crédito, precisou reduzir os gastos do cotidiano para levar uma vida mais controlada e ainda não comprou um novo carro. Além dos perrengues que a fizeram repensar a forma de ajudar a família, ela hoje enxerga o que ganha com outros olhos.

Por um lado, colocou limites ao auxílio que dá ao pai e passou a ver o dinheiro de outra maneira. “Hoje eu só ajudo com o que posso. Se não tenho dinheiro para emprestar ou se vejo que vou passar sufoco se der a ajuda que ele precisa, não faço. Por tudo que ele fez por mim na vida, eu sinto que é minha obrigação ajuda-lo, mas eu também preciso fazer meu pé de meia, não posso me responsabilizar pelos erros dele”.

O revés de toda a experiência de ter “aprendido na marra”, são as privações que ela ainda tem em função de tudo que passou. A dívida que acumulou foi renegociada para ser quitada em seis anos, sendo que ela conseguiu pagar metade. Com um relacionamento de quatro anos em andamento, ela pensa a longo prazo, na vida a dois, e não pretende cometer os mesmos erros do passado. “Vivi momentos de austeridade e me comprometi muito, hoje não faço isso mais”.

O dinheiro que gastou ajudando o pai, hoje ela não permite gastar consigo. Quando olha para roupas em vitrines, imagina o quanto o valor representa em contas fixas que poderiam ser pagas. A relação com o pai, de certa forma, também ficou abalada. “A gente acaba visitando menos. Eu ainda o ajudo quando posso, mas não faço o que fazia antes e me afastei um pouco também”, relata.

 

E você, já passou por alguma situação complicada envolvendo dívidas e parentes? Sua história pode virar matéria, compartilhe conosco a sua experiência escrevendo um email para minhahistoria@financasfemininas.uol.com.br.

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Karina Alves

Jornalista e editora de conteúdo do Finanças Femininas. Já trabalhou em jornais impressos, online, rádio e com produção. Tem fascínio pela junção entre economia e psicologia, procura explorar cada vez mais esse universo e busca usar esse aprendizado para ajudar as pessoas a levarem uma vida financeira mais saudável! Contato pelo karina@financasfemininas.com.br

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