Gravidez e trabalho: 3 em cada 7 mulheres têm ou tiveram medo de perder emprego devido à gestação

Gravidez e trabalho: 3 em cada 7 mulheres têm ou tiveram medo de perder emprego devido à gestação

Conciliar gravidez e trabalho é uma dificuldade real para as mães, principalmente as menos favorecidas, que contam apenas com a ajuda deficiente do Estado para darem conta da carreira e da maternidade. É neste cenário que o portal Trocando Fraldas divulga uma pesquisa sobre o tema, trazendo dados estarrecedores.

O levantamento, realizado com 11 mil mulheres de todo o Brasil, aponta que 3 em cada 7 brasileiras têm ou tiveram medo de perder o emprego devido à gestação, sendo que o receio é maior entre aquelas da região Centro-Oeste e Sudeste (representando 43,8% em ambas localidades). Apesar da CLT garantir a estabilidade da gestante, na prática, isso pode não funcionar como deveria.

A consultora comercial em engenharia Cláudia* foi demitida um mês após o fim da estabilidade garantida à gestante. Ela teve uma gestação complicada – aos sete meses, teve que entrar de licença-maternidade para que suas gêmeas não nascessem prematuras. Neste período em que estava trabalhando, ela percebeu alguns sinais de que sua gravidez não era vista com bons olhos no setor em que atuava. Ser alvo de piadas e ofensas, e até ser excluída do grupo de WhatsApp dos funcionários despertou a desconfiança de que seria demitida.

Ironicamente, a empresa onde trabalhava possuía uma política de incentivo à maternidade, oferecendo até mesmo licença-maternidade estendida. “Quando voltei da licença, passaram-se quatro dias e, então, fui dispensada”, conta. Mesmo sabendo que o que aconteceu foi por conta da falta de compreensão de seu gestor, Cláudia diz que não denunciou o ocorrido por medo de não ser recontratada pela empresa em outra oportunidade ou de se recolocar no mercado de trabalho.

Quando a maternidade não é boa notícia

A reação do chefe ao receber a notícia também não costuma ser das mais corteses. As entrevistadas contam que mais de um terço dos superiores não ficou feliz com a gestação da funcionária e 1 em cada 6 mulheres sentiu que o chefe teria preferido demiti-la por isso. As mulheres do Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina, especialmente Florianópolis, são as que mais sentem a falta de receptividade.

Os comentários e piadinhas machistas resultaram na demissão da assistente administrativa Karen Almeida, que hoje conseguiu se recolocar no mercado de trabalho. Ela – que há tempos aturava cantadas de seu chefe –, quando engravidou do pequeno Arthur, aos 19 anos, passou a ouvir comentários sobre sua sexualidade. “Ele dizia: ‘Nossa, mas você tem essa cara de santinha e faz essas coisas?’ na frente de todo mundo, e isso me constrangia muito”, relembra.

Apesar da vontade de se demitir, Karen fez o que pode para suportar a situação – Arthur nasceu com uma lesão no braço direito e precisava do convênio oferecido pela empresa. Essa questão a fez ter que sair do trabalho diversas vezes para levá-lo ao médico. “Então, eles acabaram me demitindo, mas me deixaram com um ano de convênio”, comenta.

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Carreira de sucesso e filhos

Acreditar não ser possível ser uma profissional bem sucedida ao mesmo tempo em que se dedica à maternidade faz com que muitas mulheres repensem a maternidade – 22% das entrevistadas disseram ter cancelado ou adiado os planos de ser mãe para priorizar a carreira.

De acordo com outra pesquisa, essa da Catho, 28% das mulheres deixam o mercado de trabalho após maternidade. Ao analisar ambos os dados, vemos que uma parcela significativa das mulheres se vê diante de um caminho bifurcado, tendo que optar por um dos lados, sem enxergar uma maneira de carregar ambos papéis sociais de maneira satisfatória.

A comprovação dessa teoria é mostrada no levantamento do Trocando Fraldas, que aponta que 56% das participantes, ou seja, mais da metade, considera mais improvável o sucesso profissional de mulheres com filhos.

Todas as capitais do Sudeste demonstram tribulações acima da média – São Paulo, 57,7%; Rio de Janeiro, 58,2%; Belo Horizonte, 60,4%; e Vitória, 66,7%. Já a campeã brasileira no quesito é Aracajú, onde mais de 72% das mulheres acreditam que mães têm maiores barreiras no sucesso profissional.

“Se o homem faz algo bem, é reverenciado por aquilo, mas se uma mulher o faz, também precisará lidar com questionamentos pessoais como ‘tem filhos?’ ou ‘como consegue conciliar as duas coisas?’”, lamenta Patricia Amorim, idealizadora do portal Trocando Fraldas.

Depois da maternidade

Voltar ao trabalho após a licença-maternidade também é uma questão – afinal, isso só é possível após se resolver onde deixará o filho durante o expediente. Por isso, apenas 62% das mães recentes conseguem voltar ao trabalho com o fim da licença-maternidade e, em média, elas precisam de 95 dias a mais para retornar às atividades.

A delonga no retorno reflete as dificuldades, principalmente de mulheres menos favorecidas, em encontrar vagas em creches públicas. Para que se tenha ideia, menos de um quarto das mulheres consegue matricular seus filhos e 63% diz que conseguir uma vaga é difícil ou muito difícil.

Com isso, busca-se alternativas: 45% das brasileiras têm que recorrer aos avós ou outros parentes para voltarem ao trabalho, uma vez que apenas 12% podem contar com a presença do pai em casa para cuidar das crianças.

Quando o filho adoece, o dilema se repete. As chances de o pai ficar em casa é nove vezes menor do que outras pessoas, sendo que em 62% dos casos, cabe à mãe lidar com a situação. Quando ela não pode, recorre aos avós ou outros parentes, ainda antes do pai.

Por isso, muitas mulheres acabam seguindo o caminho do empreendedorismo para tentar dar conta. “Isso acontece por elas considerarem mais fácil cuidar do filho e trabalhar em algo que as motive. Porém, o ideal seria que essa não fosse uma ‘escolha forçada’, só porque um outro espaço físico não é capaz de respeitar o exercício da maternidade da profissional”, ressalva Patricia.

De acordo com a pesquisa, Brasília é a capital onde as mulheres mais sofrem dificuldades ao conciliar maternidade e carreira, sendo que o Rio de Janeiro fica em segundo lugar e, em terceiro, Goiânia. Em último lugar no ranking está Palmas, onde as mães relataram encontrar menos empecilhos do que nas demais capitais.

“Talvez seja uma questão de não se deixar abater diante das adversidades por conta de diferenças de gênero e continuar em luta por espaços a partir de escolhas. Esteja sempre apta a defender o seu lugar, suas escolhas, sua vida e até mesmo impor um limite a questionamentos pessoais, quando forem desnecessários diante das atividades profissionais exercidas”, finaliza.

*O nome de Cláudia foi trocado para preservar sua identidade.

Fotos: Shutterstock

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Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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