Mansplaining: o que é e como ele pode prejudicar sua carreira

Mansplaining: o que é e como ele pode prejudicar sua carreira

A palavra “mansplaining” pode até ser estranha para você, mas é bem provável que você já tenha sofrido isso na pele. Isso acontece quando um homem explica algo muito óbvio para uma mulher de forma extremamente detalhada e didática – como quem fala com uma criança –, como se ela não tivesse capacidade mental de entender de outra forma.

O termo vem do inglês e é uma junção de “man” (homem) e “explaining” (explicar). É comum que homens pratiquem o mansplaining com mulheres que dominam o assunto que ele se propõe a explicar e pode acontecer em diversas ocasiões, desde o dia a dia – por exemplo, tentar explicar para uma mulher como funciona sua própria vagina – até no trabalho.

“Esse comportamento tem grandes chances de afetar a carreira dessa mulher, a começar por diminuir sua autoestima, autonomia e também sua motivação e, às vezes, até a sua credibilidade no meio em que atua”, afirma Rafaela Generoso, Master Coach, Master Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL) e especialista em Gestão de Pessoas.

Como o mansplaining pode destruir sua autoestima no trabalho

Foi exatamente o que experimentou a editora e roteirista Roberta Scavone, que passou por diversas situações abusivas durante os dois anos em que trabalhou em uma produtora de vídeos. Apesar de o dono não ter nenhum estudo ou experiência na área, ele repetia informações óbvias para ela, uma profissional formada e experiente.

“Ele sabia que não precisava me dizer essas coisas. Falei que já sabia o que ele estava falando e ainda tive que ouvir: ‘nossa, você é muito arrogante! Deveria prestar atenção ao que eu falo’”, relata ela, que chegou a pensar que era coisa da sua cabeça. Porém, até mesmo clientes quiseram lhe explicar como funciona um roteiro, sendo que essa é sua ocupação principal.

Também foi neste mesmo ambiente de trabalho que ela viu suas ideias sendo ignoradas e, ao serem repetidas por um colega de trabalho homem, tiveram total atenção e devidos créditos.

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“Ok, vamos esperar você me interromper para me falar algo que eu já sei”

“Demorei muito tempo para perceber que isso acontecia. O pior é ter que lidar com as coisas que aconteceram lá e não levar para os meus próximos trabalhos”, desabafa ela, que até hoje tem problemas de autoestima por conta das situações abusivas.

“Ele repetia exatamente a mesma coisa que eu tinha dito”

Quando trabalhava em uma biblioteca de uma faculdade, a bibliotecária Jane* teve que lidar com um colega que, a princípio, “apenas” tinha mania de ficar atrás dela, observando o que digitava no computador, enquanto ela atendia os estudantes – e, quando ela não era a vítima, o funcionário fiscalizava o que as demais funcionárias mulheres faziam.

“Mais dia, menos dia, ele passou a se colocar ao meu lado enquanto atendia qualquer usuário, e logo depois de eu tirar as dúvidas da pessoa que estava atendendo, ele atraía a atenção da pessoa para si e repetia exatamente a mesma coisa que eu tinha dito”, diz.

Ele também tentou ensiná-la a catalogar livros – algo que ela faz desde a faculdade, uma vez que é formada em biblioteconomia – e, ainda por cima, de forma errada. “Eu tinha que engolir sapo. A supervisora foi conivente com todas as bobagens dele”, lamenta.

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Como lidar com o mansplaining

“Acredito que seja necessário muito mais uma mudança de comportamento feminino do que masculino. Infelizmente, não podemos esperar que a mudança parta deles. É importante que as mulheres se deem conta de que essa atitude não é natural. É, no mínimo, desrespeitosa”, afirma a especialista em PNL Mileine Vargas.

Ela defende que, quanto mais fortalecida estiver a autoconfiança da mulher, melhor ela saberá lidar com a situação.

“Após o ocorrido, é muito importante a mulher tomar uma ação, ou seja, se um colega entra nos assuntos de sua responsabilidade e expertise e fica explicando o óbvio, peça licença e jogue a real nele, sem discutir ou brigar e mantendo sua postura educada, calma e firme”, ensina Rafaela.

A própria master coach já passou pela situação algumas vezes e, em alguma delas, até fez piada para se esquivar de um colega de trabalho. “Eu disse, em tom de brincadeira e com olhar firme: ‘Você quer ensinar o padre a rezar a missa?’”, conta.

Em seguida, ela falou sério e em particular, pedindo para ele tomar cuidado com a maneira que traz suas explanações. “Foi excelente, pois não aconteceu mais e nem teve clima entre nós, pois cuidei do tom de voz, do meu olhar, de todo meu emocional.”

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Homem: “Vocês já ouviram falar em mansplaining? Deixe-me explicar”

A união e confiança entre mulheres – a chamada sororidade – também é muito importante para combater o mansplaining, seja no apoio entre colegas ou, quando se ocupa cargo de chefia, incentivando as funcionárias a se levantarem contra a postura masculina e se colocando como exemplo ao não permitir que isso aconteça consigo mesma.

“Infelizmente, é muito comum as próprias mulheres atribuírem crédito maior aos homens do que a elas próprias. O papel do líder é justamente desenvolver sua equipe, questionando, confrontando de forma positiva as crenças limitantes das pessoas ao seu redor”, pontua Mileine.

Manterrupting, bropriating e gaslighting

Além de derrubar a autoestima da mulher, este tipo de machismo “sutil” costuma ser acompanhado de outras atitudes, como o chamado manterrupting – quando um homem interrompe uma mulher de forma constante e desnecessária, sem deixá-la concluir seu raciocínio. Por exemplo:

Diversos estudos mostram que tanto o mansplaining quanto o manterrupting são reais. Um deles, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, aponta que homens interrompem mulheres para demonstrar poder diante dos demais interlocutores.

“Se em uma reunião um colega a interrompeu em sua explanação, peça licença de forma educada e firme e retome o seu assunto: ‘Ok, fulano, sei que deseja colaborar, mas, por favor, deixe eu concluir a linha de raciocínio para mantermos o foco. Depois terei o maior prazer em te escutar e juntos construirmos uma solução’”, instrui Rafaela.

Há, ainda, o bropriating, que acontece quando um homem se apropria de uma ideia que uma mulher havia dado simplesmente porque ninguém havia dado créditos a ela quando ela disse – algo muito comum em reuniões e no ambiente de trabalho em geral. Esse termo é a junção de “bro” (de “mano”, “brother”) e “appropriating” (apropriação), do inglês.

Isso aconteceu com a editora Roberta. Certa vez, ela deu uma ideia até então ignorada por seus superiores, mas que foi prontamente acatada quando um colega homem a repetiu. Apesar de ele ter dado os créditos a ela, os chefes preferiram atribui-la a ele.

“Já o gaslighting é outra expressão que traduz quando o homem julga a mulher como surtada ou mesmo louca por ter um ponto de vista diferente do dele”, define Mileine. Ele é comum em relacionamentos abusivos, mas também acontece em relações de trabalho.

Todas essas formas de agressões verbais cotidianas – algumas vezes sutis, outras, mais fortes – contribuem para diminuir a autoestima da mulher e, consequentemente, prejudicar sua carreira. Cabe a nós nos levantarmos contra essa cultura e dizermos que não está tudo bem sermos tratadas como se fossemos inferiores ou incapazes.

Fotos: Fotolia e GIPHY

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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