Mulheres respondem melhor à pressão do que os homens

Mulheres respondem melhor à pressão do que os homens

Após observar mais de 8.200 partidas de tênis do Grand Slam – quando o jogador realiza o feito de ganhar todos os quatro torneios no mesmo ano -, o economista empírico Alex Krumer, da Universidade de St. Gallen, Suíça, constatou que mulheres respondem melhor à pressão do que os homens. O estudo, realizado em conjunto com outros pesquisadores, analisou o desempenho dos jogadores em situações de grande tensão.

A pesquisa analisou jogadores franceses, americanos e australianos em cada set jogado. Foi constatado que a performance deles caia em situações como quando ocorria empate. “Em relação às mulheres, não vimos nenhuma diferença entre o desempenho pré e pós-empate. E, mesmo quando o desempenho no jogo das atletas caia à medida que a pressão aumentava, o resultado era aproximadamente 50% menor”, comenta Krumer.

Confira a entrevista do economista à repórter Alison Beard, da revista Harvard Business Review (HBR).

HBR: Por que estudaram apenas os primeiros sets do Grand Slams?

“O tênis é um esporte muito bom para medir o desempenho e a pressão competitiva. Sempre há um vencedor de cada ponto e partida, onde é possível avaliar até que ponto a vitória em um jogo específico – quando o resultado de, por exemplo, 1-1, 3-1 ou 5-0 – afeta a probabilidade de ganhar a partida. Nós olhamos apenas os primeiros sets, porque achamos que a assimetria, a fadiga e o impulso podem se tornar fatores relevantes.

Além disso, ganhar os primeiros sets oferece uma grande vantagem: nos nossos dados, 85% das mulheres e 77% dos homens que ganharam o primeiro set também ganharam o jogo. Os homens jogam mais sets nesses jogos – cinco, em comparação com três para as mulheres -, o que torna ainda mais importantes as mulheres ganharem o primeiro set. E nos concentramos em Grand Slams porque seus incentivos monetários e pontos de classificação são os maiores, e eles são os únicos torneios que dão o mesmo prêmio em dinheiro para homens e mulheres.”

Então, o dinheiro e os pontos do Grand Slam aumentam ainda mais a pressão?

“Existem muitas pesquisas sobre a relação inversa entre desempenho e pressão induzida por incentivo. Dan Ariely, da Duke University (EUA), e outros pesquisadores publicaram um artigo chamado Large Stakes, Big Mistakes (Grandes apostas, Grandes erros, em tradução livre), que descrevia experimentos com aldeões na Índia e estudantes universitários. Entre eles, quem recebia incentivos em grande quantidade tinha um menor desempenho em relação a quem recebia menos incentivos. Outros estudos mostraram que os jogadores de basquete australianos acertavam mais lances livres no treino do que nos jogos, e que os golfistas profissionais são mais propensos a perder um tiro no último buraco de um torneio.”

Você esperava encontrar diferenças entre os sexos?

“Não tínhamos certeza, porque a evidência sobre gênero, pressão e desempenho é limitada e mista. Alguns estudos não encontraram diferença entre homens e mulheres. Outros descobriram que as mulheres superam os homens em certos ambientes. M. Daniele Paserman, da Universidade de Boston, também analisou os dados do Grand Slam antes de nós e descobriu que ambos os sexos jogam de forma mais conservadora em pontos-chave, cometem menos erros não forçados e acertam menos pontos. Mas ele não avaliou diretamente o efeito da pressão competitiva sobre a probabilidade de ganhar. Achamos que seria interessante analisar esses resultados inequívocos e perguntar: qual grupo bloqueou menos quando importava?”

Você analisou adversários do mesmo sexo. Se um jogador estava com desempenho inferior devido à pressão, o seu oponente – uma pessoa do mesmo sexo – não superou as mesmas circunstâncias?

“É por isso que nos concentramos em quem ataca primeiro. Existe um grande acordo entre os especialistas em tênis de que qualquer ponto depende mais do desempenho do ataque, que tem controle total sobre o primeiro ponto, do que do receptor, que simplesmente reage a ele. Em média, a pessoa que ataca ganha 72,6% das vezes. Então, quando um tenista perde um ponto crítico, é mais provável que ele ou ela tenha tido problemas do que o outro jogador tenha errado.”

Você acha que teria resultados diferentes caso analisasse os jogos do Grand Slam com duplas mistas, de ambos os sexos?

“Provavelmente sim. Pelo menos um experimento de laboratório mostrou que as mulheres respondem mais positivamente ao aumento da pressão em um ambiente de sexo único do que em um sexo misto, enquanto os homens apresentam melhor desempenho no último caso. Então, temos que ter cuidado ao fazer generalizações. E na maioria das vezes, incluindo o mercado de trabalho, as mulheres obviamente têm que competir com os homens.”
No geral, nós, mulheres, não somos Serena Williams, considerada a tenista número 2 do mundo.

“Eu entendo seu ponto de vista. Nosso estudo analisou o melhor dos melhores no tênis. Talvez essas atletas de elite tenham algo que a maioria das mulheres não têm, o que lhes permite ter melhor empenho do que os homens no mesmo nível. Mas pense em outros papéis em que você precisa ter pessoas que ficam calmas sob pressão – posições de CEOs em grandes empresas, por exemplo. Você vê um tipo diferente de elite e de profissionais experientes. E ainda assim, apenas cerca de 4% dos executivos-chefe da Fortune 500 (classificação das 500 maiores corporações em todo o mundo) são mulheres.”

pesquisa-tennis

 

Como você explica os resultados obtidos com a pesquisa?

“Nós não sabemos, mas pode ser biológico. Se você olhar para a literatura sobre o cortisol, o hormônio do estresse, você achará que esses níveis aumentam mais rapidamente nos homens do que nas mulheres – e que esses picos podem prejudicar o desempenho. Nós não conseguimos obter amostras de sangue dos jogadores de tênis, mas eu me pergunto se podemos ter encontrado evidências semelhantes.

Nós analisamos as lutas de judô de 2009 a 2013 e descobrimos que, entre os ganhadores da medalha de bronze, os homens que haviam ganhado lutas anteriores eram mais propensos a vencer em rodadas de medalhas de bronze do que os homens que acabavam de perder, enquanto o recorde de luta anterior das lutadoras não teve efeito sobre a sua probabilidade de vitória. Mais uma vez, isso faz sentido biologicamente, porque sabemos que a testosterona, um potenciador de desempenho comprovado, tem um pico após o triunfo e abaixa após a derrota em homens, mas não em mulheres.”

Então, afinal, não somos o sexo mais fraco e mais emocional?

“É engraçado: eu sou de Israel, onde todos são obrigados a servir nas forças armadas nacionais, e estamos tendo um grande debate agora sobre as mulheres assumirem papéis de combate. Em uma discussão televisiva recente sobre o assunto, um palestrante citou nosso estudo para justificar uma mudança para a igualdade de gênero nas forças armadas. Fisicamente falando, os homens ainda são mais fortes que as mulheres, em média. Mas se você está considerando a dureza mental, talvez em certas circunstâncias, as mulheres têm vantagem.”

Texto original publicado na Harvard Business Review

Fotos: Fotolia

Gostou do nosso conteúdo? Clique aqui e assine a nossa newsletter!

Desabafa!

Se você tem alguma dúvida sobre sua vida financeira ou uma boa história sobre dinheiro para contar pra gente, mande através do formulário abaixo.

O conteúdo da sua mensagem poderá ser utilizada em nossas matérias. Caso você prefira não ter o seu nome identificado, é só selecionar a opção "Mensagem Anônima".

personNome

personSobrenome

Mensagem anônimainfoSim

local_post_officeEmail:

commentMensagem: (obrigatório)

Este conteúdo foi útil para você?

Gabriella Bertoni

Gabriella Bertoni

Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
Fale comigo! :) gabriella@financasfemininas.com.br

close