O desemprego e a inflação do suco verde

O desemprego e a inflação do suco verde

*Naiara Bertão

Bom dia, pessoal.

Acho que vocês já devem estar cansados de falar de demissões, não? Eu mesma cheguei até a dar meu depoimento ao Finanças Femininas para a matéria ‘SOS, Perdi o emprego’. Infelizmente, esse mesmo tema foi o destaque do noticiário econômico. Isso porque um dos indicadores dos quais Dilma Rousseff e sua equipe econômica ainda conseguiam encher a boca para falar – a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) – está sucumbindo à desaceleração econômica.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa subiu em abril para 6,4% e o número de desempregados já ultrapassa 1,6 milhão de pessoas – nesta pesquisa. Vale lembrar que muitos economistas acreditam que a PME já não traduz bem a realidade do mercado de trabalho. Ainda mais agora que o IBGE está divulgado mensalmente a Pnad Contínua, mais completa. Em abril a Pnad Contínua indicou taxa de desocupação de 7,9%. Há especialistas esperando que ela passe dos 10% até o fim do ano. Esses sim seriam níveis de crise econômica.

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As pessoas estão segurando os gastos, especialmente os supérfluos. O salário real não acompanha mais a inflação. A Pesquisa Mensal de Emprego, aquela que eu citei lá em cima, mostrou que a remuneração média do trabalhador diminuiu 0,5% entre março e abril e 2,9% em relação ao mesmo mês do ano anterior, para R$ 2.138,50.

Sem dinheiro, as pessoas não consomem como antes, as empresas não vendem, os fornecedores não recebem encomendas e os trabalhadores ficam ociosos. Ociosidade não é uma palavra que patrões gostam e, para se ajustar aos novos tempos de vacas magras, demitem. O ciclo é vicioso e reflete diretamente no Produto Interno Bruto (PIB). A expectativa para a economia já é de queda de 1,2% para este ano. A prévia mensal do PIB, indicador chamado de IBC-Br, caiu 0,81% no primeiro trimestre do ano, quando comparado aos últimos três meses de 2014. Se olharmos em comparação ao primeiro trimestre de 2014, o recuo é ainda pior: 1,98%.

desemprego-crise

O PIB nada mais é um reflexo de tudo que vivemos em nosso dia a dia. Já estamos percebendo a desaceleração. Na semana passada eu fui visitar um novo shopping inaugurado na Avenida Paulista. Apesar de ainda ter lojas para serem abertas, o shopping estava muito vazio para seu potencial. É claro que um shopping no coração de SP vai dar retorno a seus acionistas a longo prazo, mas eles devem estar esperando um ano perdido para 2015.

Um professor meu disse que ainda não sentimos a crise com força e que o segundo semestre pode ser ainda pior. Eu mesma senti o drama na pele ao falar com o atendente da Caixa Econômica Federal sobre meu FGTS. Ele me disse que só ali, naquela agência, eles já haviam atendido mais de 300 ex-funcionários de montadoras. Se contabilizarmos todas as agências da Caixa de todo o país o número deve ser assustador. As montadoras ainda têm dificuldade em demitir porque possuem acordos fortes com os sindicatos. Mesmo assim, as contas não estão fechando e as demissões se mostram inevitáveis. A Mercedes-Benz, por exemplo, desligou na semana passada 500 pessoas da fábrica de São Bernardo do Campo. Estes já estavam com o contrato suspenso (em lay-off). A montadora já alertou: outros 7 mil trabalhadores da área de produção entrarão em férias coletivas em junho. Há ainda um excedente de 1.750 colaboradores na fábrica.

Essas pessoas logo mais vão entrar nas estatísticas de desocupação e precisar segurar o bolso para passar o ano – ou até conseguirem um novo trabalho. Enquanto isso, os preços, em geral, só sobem. Está quase impossível entrar em um supermercado sem tirar do bolso um mínimo de R$ 50. Sair para jantar fora, então, nem se fala. Economistas ouvidos para o relatório semanal Focus, do Banco Central, já apostam em alta de 8,31% dos preços neste ano. Até mesmo o suco verde que eu comprava quase todo dia na Avenida Paulista já inflacionou: passou de R$ 3 para R$ 3,50 a garrafinha em poucos meses. Das duas uma: ou os vendedores estão perdendo a noção de realidade ou estão querendo lucrar alguma coisa a qualquer custo enquanto as pessoas ainda compram – tipo taxista de cidade praiana no verão, sabem? Uma lição disso tudo a gente sempre pode tirar: é hora de começar a assistir aulas de culinária sem desperdício do Sesi.

Agenda da semana:

25/05 (segunda-feira) – Nota de Mercado Aberto/Banco Central

26/05 (terça-feira) – Nota de Setor Externo/Banco Central

27/05 (quarta-feira) – Nota de Política Monetária/Banco Central

29/05 (sexta-feira) – Nota de Política Fiscal/Banco Central

29/05 (sexta-feira) – PIB do 1º trimestre de 2015/IBGE

Crédito das fotos: Shutterstock

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

 

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