O maior erro não foi da arbitragem

O maior erro não foi da arbitragem

*Karina Alves

“Essa bandeirinha é bonitinha, mas não está preparada. Se é bonitinha, que vá posar para a Playboy”. Saber que uma declaração tão infeliz saiu da boca do dirigente de um dos principais clubes de futebol do país dói no estômago de qualquer mulher. Dói ainda mais por não ter sido a primeira vez que um insulto deste nível aconteceu no contexto dos gramados.

Para quem não acompanhou a polêmica, o diretor do Cruzeiro, Alexandre Mattos, foi o autor da declaração acima, logo após uma derrota para o principal rival, Atlético Mineiro, pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro. Os disparos contra a atuação da bandeirinha Fernanda Colombo vieram em função de um erro de arbitragem cometido por ela, ao marcar um impedimento inexistente em uma jogada de ataque do time celeste.

Dias antes, em jogo pela Copa do Brasil, o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho, também teve a infelicidade de criticar a atuação da bandeirinha com uma declaração que associava a beleza e a profissão. “É bonita, mas errou”, disse aos jornalistas na ocasião do jogo. Encarar declarações desse nível com naturalidade é o mesmo que aceitar sem contestar frases infelizes e constantes como “lugar de mulher é na pia/no fogão/no tanque”.

Não existe essa história de que “é bonita, mas errou”. Critica-la estritamente pelos erros de arbitragem – na mesma medida em que os árbitros e auxiliares do sexo masculino – é justo. Querer misturar os atributos físicos com o erro que cometeu, é machismo em seu nível mais escancarado.

Obviamente os episódios geraram repercussão sobre o teor machista das declarações, mas o que assusta é que em muitos casos as coberturas jornalísticas banalizam as situações, postura que reforça ainda mais o preconceito contra as mulheres no esporte que mais influencia a população do nosso país. Há quem trate a declaração de Alexandre Mattos como mera ironia, outros não enxergam nenhum problema em destacar a presença de Fernanda Colombo nos gramados pela beleza da jovem.

Bastam apenas alguns minutos de reflexão para ver que tem algo de muito errado neste tipo de abordagem. Por acaso você já leu alguma notícia com o título: “Cristiano Ronaldo é bonito, mas perde gol importante para o Real Madrid”? Como bem lembrou o colega Breiller Pires, da Placar, o ensaio fotográfico da ex-assistente Ana Paula Oliveira para a revista Playboy foi o pontapé para declinar a carreira dela. A mesma escolha feita pelos ex-jogadores Vampeta e Roger Noronha, que posaram para a G Magazine, não afetou em nada a trajetória de ambos dentro de campo.

A gente não percebe, mas esse senso comum errado começa lá nas conversas de boteco, quando algum cara provoca uma menina na mesa pedindo que ela explique as regras do impedimento para provar que entende de futebol.

O questionamento que trazemos hoje não é só para quem se interessa pelo esporte. Afinal, o machismo do “é bonita, mas errou” é replicado em várias esferas da nossa sociedade. E aí muita gente vai dizer, “ah, mas isso é cultural, não vai mudar nunca”. Não é bem assim. Só não muda se todo mundo ver, achar errado e continuar pensando que não adianta fazer nada. Dá para começar essa mudança dentro de casa, não aceitando piadinhas de cunho machista, reprimindo os mais velhos que estiverem cometendo este tipo de erro na frente das crianças, mais além, ensinar aos pequenos que não é dessa forma que eles devem enxergar o mundo.

Perceber que algo está errado e fazer ao menos um esforço para mudar isso dentro de casa é dar início a pequenas revoluções para uma visão mais equilibrada e justa no futuro. À Fernanda Colombo, o Finanças Femininas deseja perseverança e determinação para seguir a carreira. E que nenhuma crítica por ser uma mulher no futebol sirva para desmotivar seu trabalho.

 

*Karina Alves é jornalista e editora-adjunta do site Finanças Femininas. Escreve sobre educação financeira, carreira, atualidades e ama tudo que faz parte do universo feminino. 

 

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Karina Alves

Jornalista e editora de conteúdo do Finanças Femininas. Já trabalhou em jornais impressos, online, rádio e com produção. Tem fascínio pela junção entre economia e psicologia, procura explorar cada vez mais esse universo e busca usar esse aprendizado para ajudar as pessoas a levarem uma vida financeira mais saudável! Contato pelo karina@financasfemininas.com.br

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