Quais os limites da comparação na infância?

Quais os limites da comparação na infância?

*Priscila Lambach

“Eu tenho, você não tem”

Poucas foram as pessoas que escaparam de ouvir essas palavras na infância. Comumente dita entre as crianças, essa frase está repleta de significados. É natural que as crianças façam comparações das mais diversas naturezas, até mesmo para se compreenderem melhor. Eu sou alto, meu colega é baixo. Eu tenho um irmão, meu colega é filho único. Os pais do amigo são separados, e os meus não são. Enfim, isso acontece o tempo todo nas relações humanas.

Precisamos ser mais cautelosas e atenciosas quando a comparação vem do lado material. O carro do fulano é melhor, a casa dele é maior, ele tem um celular mais moderno do que o meu. Pessoas terão sapatos melhores do que os nossos, joias mais caras do que as nossas, afinal, cada adulto decide como administrar seus recursos financeiros. O problema é quando as crianças associam as diferenças materiais a julgamentos, opiniões, questões de autoestima e por ai em diante.

É preocupante quando há revolta por “ter” menos. Isso muitas vezes leva a uma agressividade verbal com os pais, exigência de que mudem a realidade financeira da família, que estacionem o carro mais distante da entrada da escola por se sentirem inferiores se comparados aos colegas, deixam de chamar os amigos para ir em casa, ou seja, é alarmante quando as comparações trazem um prejuízo no bem-estar emocional da criança e/ou adolescente.

No mundo maravilhoso, prevenimos que essa situação aconteça. Educamos as crianças para a cultura do “ser” ao invés do “ter”, mostramos que são belas, maravilhosas e perfeitas do jeito que são e que há uma diferença entre “necessidade” e “desejo”.

Aprendi muito cedo com a minha mãe que eu era muito mais do que aquilo que tinha. Consigo montar infinitos looks com poucas peças, tenho poucos sapatos e comprei somente três bolsas desde a adolescência. Não preciso de muito. Aprendi com a minha família que era melhor ter um item bom do que dez descartáveis. Uso o mesmo vestido de festa há mais de 15 anos porque cuido dele – meu corpo mudou muito neste período.

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Sei da importância de doar uma roupa para dar espaço a outra nova no armário. Aprendi desde cedo a doar brinquedos e montava kits para crianças carentes.

Estudei em um colégio em que grande parte dos alunos tinha condições financeiras melhores do que a minha. Porém, nunca me senti diminuída. Nunca me faltou nada. Com o que tinha, fiz muito; sou criativa, organizada, rápida no gatilho. Então, adoro o desafio de inovar com o que já tenho. Naquela época não tinha como aprender a fazer maquiagem pelo YouTube, imagine só se tivesse.

Brincadeiras à parte, não iria gostar se alguém dissesse a frase “eu tenho, você não tem” para meu filho. Porém, pior ainda seria se o meu filho dissesse “eu tenho, você não tem” para outra criança. Isso me deixaria arrasada.

Gosto de produtos de boa qualidade, jamais serei hipócrita nesse sentido. Gosto de me vestir bem e tenho peças de grifes renomadas. Não recrimino quem tem e quem compra, pelo contrário. Acredito piamente que cada um pode e deve fazer com o seu dinheiro o que bem entender, mas incentivar as crianças a entrarem de cabeça no mundo do consumismo não é uma boa ideia.

Acredito que a educação financeira pode ser aprendida desde cedo e que valorizar o dinheiro nunca é demais, por mais que se tenha recursos de sobra. Ensinar sobre dinheiro desde a infância facilita muito a vida. São as bases para que, na fase adulta, o indivíduo não se sinta diminuído por conviver com alguém mais rico, para fortalecê-lo em um mercado altamente competitivo e avassalador, enfim, para que ele reconheça o próprio valor. Afinal, não educamos crianças para esbanjarem recursos materiais, mas para serem as melhores pessoas que puderem. Apoio a compra consciente e responsável. É preciso ensinar as crianças a serem éticas e a valorizarem o ser humano acima de tudo.

*Priscila Lambach é administradora de empresas e pedagoga. Fala sobre desenvolvimento humano e formação pessoal feitos com poucos recursos, de forma criativa e eficiente – desfazendo a ideia de que para educar bem é preciso investir muito dinheiro.

Fotos: Shutterstock

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