Relatório: mulheres contribuem com US$ 10 trilhões em cuidados não remunerado todos os anos

Relatório: mulheres contribuem com US$ 10 trilhões em cuidados não remunerado todos os anos

Em 2017, a cada dois dias, uma pessoa ficava bilionária no mundo. Este foi o maior aumento de bilionários da história, e o dado revela uma realidade perturbadora: o patrimônio seria suficiente para acabar com a pobreza extrema global mais de sete vezes – considerando U$1,90, por dia e por pessoa. Seria possível eliminar a linha de extrema pobreza por sete anos consecutivos. Atualmente, há 2.043 bilionários (em dólares) em todo o mundo. Nove entre dez deles são homens.

O dados são do relatório Recompensem o trabalho, não a riqueza, da Oxfam, que entrevistou mais de 70 mil pessoas em 10 países, o equivalente a um quarto da população mundial. No período entre 2006 e 2015, os trabalhadores viram suas rendas aumentarem em média 2% a cada ano, enquanto a riqueza dos bilionários aumentou próximo de 13% no mesmo período, quase sete vezes mais rápido.

“A participação feminina é pífia.”

Fora deste universo dos bilionários, as mulheres contribuem, anualmente, com US$ 10 trilhões em cuidados não remunerados para sustentar a economia global, de acordo com uma estimativa da ONU. Isso significa que, se todos fossem pagar pelos cuidados diários que temos com a casa e filhos, para além do trabalho, a dívida seria enorme.

“A participação feminina é pífia, infelizmente. As mulheres têm espaços reduzidos na economia em geral. Elas sofrem a discriminação sistemática no momento em que entram no mercado de trabalho, ao serem enxergadas como quem precisa cuidar de tudo e o trabalho não é prioridade. É como se fosse obrigação apenas delas cuidar da casa, dos filhos, dos velhos”, ressalta o coordenador de campanha da Oxfam Brasil, Rafael Georges.

Os dados misturam o trabalho doméstico não remunerado, outros tipos de trabalho não remunerado e o fato da mulher sofrer discriminação pura só por ser mulher. “As mulheres, no geral, estão na base da pirâmide social. Tratar da questão de gênero é tratar o coração da desigualdade. Existe uma exclusão ainda maior de mulheres negras na economia no Brasil. Elas são quem ganham menos na escala de renda, que têm menor patrimônio e quem têm que arcar com a maior parte do trabalho não remunerado”, complementa.

Riqueza na mão de poucos

Ao todo, 82% da riqueza gerada ficou nas mãos do 1% mais rico, e nada restou para os 50% mais pobres. O nível de desigualdade chegou a um patamar insustentável. De acordo com dados divulgados pelo banco Credit Suísse, 42 pessoas detêm a mesma riqueza que as 3,7 bilhões de pessoas na base da pirâmide da distribuição de renda. No Brasil, quem ganha um salário mínimo precisaria trabalhar 19 anos para alcançar o valor que uma pessoa do grupo do 0,1% mais rico ganha em um mês.

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“Há um problema de interpretação sobre como a riqueza se acumula no mundo. O consenso é de que as pessoas que trabalham muito e conseguem inovar e se destacar na economia, precisam ser premiadas por isso. E tem pessoas extremamente talentosas que saem da sua condição e dão um salto em termos de patrimônio. Porém, o que acontece, de fato, é que dois terços dos bilionários do mundo têm seu patrimônio a partir ou de herança, ou por meio de relações pouco éticas com o Estado. Ou ainda com monopólios. Isso não é sinal de prosperidade, é sinal de um sistema falido”, comenta Georges.

Solução: colocar em prática uma reforma tributária global

Uma das soluções apontadas pelo relatório para o fim da desigualdade social é acabar com os paraísos fiscais. “Isso é uma faca no pescoço dos países, que acabam por manter a prática com medo de os capitais fugirem, caso a tributação se torne mais justa”, pontua Georges.

Outro ponto abordado por Georges é a mudança de comportamento que começa já na folha de pagamento. “Têm presidentes de empresas que ganham 200 vezes a renda média dos funcionários. Na prática, isso se reflete em desigualdade. A recomendação é que o presidente não ganhe mais de 20 vezes da renda média dos funcionários.”

Para o especialista, o Brasil também tem uma extensa lição de casa sobre sistema tributário. “Hoje, nosso sistema pesa muito no bolso da classe baixa e média, considerando até 20 salários. Essas pessoas pagam impostos de renda altos, além de tantos tributos em bens de consumo e serviços. Para quem tem muito dinheiro, isso pesa menos. Outra medida é aumentar o gasto social. O custo desse desequilíbrio é condenar gerações futuras a uma educação medíocre e acesso precário à saúde. Estamos matando a galinha dos ovos de ouro, que é justamente o avanço social”, conclui.

Fotos: Fotolia

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Gabriella Bertoni

Gabriella Bertoni

Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
Fale comigo! :) gabriella@financasfemininas.com.br

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