Uma a cada três propriedades rurais é gerida por mulheres

Uma a cada três propriedades rurais é gerida por mulheres

Sônia Aparecida da Silva Bonato, 61 anos, nasceu e foi criada no campo. Passou a vida vendo o pai produzindo os alimentos para família e a mãe preparando óleo de gergelim – algo que considera difícil de ser visto em casa atualmente. Casou-se com um produtor rural, se especializou e hoje é agropecuarista. Ela faz parte de uma importante mudança no universo rural encabeçada por mulheres.

A realidade do campo brasileiro mudou nos últimos anos: as mulheres já ocupam 30% dos cargos de comando. Em 2013, a representatividade feminina era de apenas 10%. O levantamento foi feito ao longo de 2017 pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), com 2.090 agricultores e 717 pecuaristas em 15 Estados. Os dados antecedem o Censo Agropecuário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que deve ser divulgado ainda este ano.

“Há uma movimentação feminina crescente em todos os setores da sociedade. No agronegócio não é diferente, sobretudo porque o setor é a bola da vez. Antigamente, o trabalho no campo era apresentado à mulher como imposição, uma escolha da família, o que limitava a atividade a herdeiras e sucessoras. Hoje o agronegócio faz parte de uma escolha da mulher, que conquistou poder de decisão e acesso à informação a ponto de traçar seu próprio caminho”, comenta Teresa Vendramini, diretora do departamento de Pecuária da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e primeira mulher a ocupar um cargo de diretoria na instituição.

Ela trouxe mudanças para a fazenda e deixou o preconceito de lado

A rotina da Sônia é difícil. Acorda às 5h, prepara o café e já engata o almoço. Depois, junto ao marido, anda pela propriedade da família, a Fazenda Palmeiras, em Ipameri, Goiás. “Levo minha máquina fotográfica e meu celular, pois temos orgulho do nosso trabalho, e registro tudo. De volta em casa, vamos aos papéis, cotação de insumos, contas e livro caixa. Também sempre ajudo com as máquinas. Abasteço, procuro mecânico, compro peças. Ainda tenho tempo para participar da vida social do município, com ações beneficentes”, conta.

Questionada se sentiu alguma dificuldade por ser mulher, prontamente responde que nenhuma. “Não ligo para opiniões de pessoas que não querem acrescentar, mas sim te diminuir. Quando preciso de opinião e ajuda, procuro um profissional da área, como agrônomo, médico, bispo, advogado, técnicos em vários setores. Eles se formaram para tornar nossas vidas mais tranquilas. Eu respondo ao preconceito com competência.”

mulher-campo

Em sua propriedade, ela implementou máquinas mais adequadas ao trabalho, prezou pelo conforto no ambiente e melhorou a alimentação dos animais. “A fazenda está mais bem cuidada, com cercas, nascentes e visual em dia. Com isso, temos mais lucro e aproveitamos melhor a vida pessoal”, ressalta.

Agronegócio passou a ser mais democrático com a realidade feminina

As histórias das mulheres do campo tinham poucas versões: trabalhavam lá para ajudar a família durante a juventude, mas se dedicavam a casa e à família logo em seguida. Essa também era uma opção para aquelas que ficavam viúvas ou perdiam os pais. Nenhuma delas por escolha ou por possibilidade de crescimento na carreira. Porém, o agronegócio não evoluiu apenas em questão de tecnologia de tratamento do solo e na venda dos insumos, mas mudou a forma como as mulheres são inseridas neste universo.

Para Teresa, ao se tornar mais democrático e considerar a realidade feminina, o agronegócio brasileiro consegue se posicionar com mais clareza perante a sociedade. “E, assim, ganha autonomia para influenciar tomadores de decisões nas instâncias políticas. Percebo que as mulheres estão unidas e focadas em um mesmo objetivo. Elas querem oportunidade e representatividade, não para um grupo restrito e privilegiado, mas para todas, sobretudo aquelas marginalizadas e excluídas das principais discussões do setor. Isso com certeza ajuda o agro a ser mais abrangente.”

“Sempre digo que as jovens de hoje já iniciam a caminhada muito mais à frente em relação às mulheres da minha geração, que começaram muito tarde. Incentivo as meninas a não pararem de estudar e prezar sempre pela especialização. Para mim a palavra de ordem é coragem. Também tive meus sacrifícios e renunciei a muita coisa para chegar até aqui, mas é preciso vencer o medo e seguir em frente para provar nosso valor. Nós, mulheres, já estamos aqui, não há mais retorno”, reforça.

Trabalho no campo: perfil cada vez mais jovem

A pesquisa mostrou ainda que o campo está cada vez mais jovem. Em 2013, os pecuaristas tinham, em média, 48 anos. No ano passado, média de idade baixou para 46,5. A diferença pode parecer pequena, mas isso ocorre porque os filhos de produtores estão permanecendo nas fazendas. Consequentemente, o cenário de moradia também mudou. Em 2013, 43% dos trabalhadores rurais tinham uma única residência no campo e 30% diziam ter duas casas, uma na cidade e outra na fazenda. Hoje, 56% moram onde trabalham e apenas 19% possuem duas residências.

Para muitos, ficar no campo não era uma opção. Hoje, é uma oportunidade de se especializarem no agronegócio. “Atualmente, recebo muitos convites de universidades para falar aos estudantes sobre o agronegócio. Me chama atenção que esses convites não partem de reitores e coordenadores, mas das próprias meninas. As jovens de hoje têm mais acesso à informação e sabem o que buscar em uma carreira. Além disso, as meninas têm onde procurar referência e inspiração em minhas contemporâneas. Esse intercâmbio de gerações e conhecimento é muito enriquecedor”, explica Teresa.

“Sempre gostei do contato com o campo e queria contribuir com essa área”

A frase é da Engenheira Agrônoma Mírian Xavier, de 31 anos, moradora do interior de Minas. Filha de produtor rural, ela foi criada na roça e hoje é chefe de operações da CompartVeg, uma empresa voltada à prestação de serviços de consultoria na cadeia de alimentos. No campo, sua função é levantar as necessidades do produtor e direcioná-lo sobre possíveis melhorias.

Com relação ao preconceito, Mírian não teve a mesma sorte de Sônia. “Presenciei algumas situações de preconceito acontecerem ao meu redor no universo Agro, que ainda é muito ‘masculino’. Em experiências dentro e fora do país, já encontrei gestores que tinham dificuldade e restrições para se comunicar com as mulheres da equipe. Mas, atuando como consultora, sempre fui bem-vinda nas propriedades e entre reuniões com equipes de multinacionais e de empresas do segmento agrícola.”

agropecuaria-mulher

Mírian conta que, ao passar por este tipo de situação, se retraia frente ao preconceito. Para mudar isso, ela começou a se preparar para reuniões e projetos com homens através do bom embasamento teórico. “Vejo que quebramos esse preconceito quando demonstramos que a capacidade de desenvolver um trabalho bem feito independe de gênero”, pontua.

O conselho da jovem agrônoma é olhar para dentro de si. “Sempre que encontramos uma barreira, é normal pensarmos que somos menos capazes ou colocarmos na cabeça que tudo é difícil. Não acho que é mais difícil por sermos mulheres, estamos em um mercado competitivo e ser um profissional que cumpre apenas o que é exigido é muito pouco. Coisas muito boas acontecem quando temos a coragem e a persistência para seguir em frente, motivadas por propósitos e ideais. Acredito que nossas ações, quando focadas em melhorias e crescimento coletivo, são sempre recompensadas”, conclui.

Fotos: Fotolia e arquivos pessoais.

Gostou do nosso conteúdo? Clique aqui e assine a nossa newsletter! 

Desabafa!

Se você tem alguma dúvida sobre sua vida financeira ou uma boa história sobre dinheiro para contar pra gente, mande através do formulário abaixo.

O conteúdo da sua mensagem poderá ser utilizada em nossas matérias. Caso você prefira não ter o seu nome identificado, é só selecionar a opção "Mensagem Anônima".

personNome

personSobrenome

Mensagem anônimainfoSim

local_post_officeEmail:

commentMensagem: (obrigatório)

Este conteúdo foi útil para você?

Gabriella Bertoni

Gabriella Bertoni

Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
Fale comigo! :) gabriella@financasfemininas.com.br

close