Vida financeira depois da faculdade: o malabarismo de Ana

Vida financeira depois da faculdade: o malabarismo de Ana

Jogando contas de lá para cá, acompanhando o movimento das dívidas com o olhar e vigiando para não deixar tudo ir ao chão, Ana Balbachevsky, de 26 anos, conduziu suas finanças com a destreza de um malabarista quando precisou assumir o controle sobre o seu dinheiro.

Se, por si só, a fase posterior à faculdade já exige muito equilíbrio – a busca por emprego é desgastante, o dinheiro não chega como desejamos e o futuro raramente é como imaginávamos – com dívidas deixadas para trás, é duplamente difícil levar a carreira adiante. E foi onde Ana se viu.

No final de 2012, em uma transição malsucedida de um estágio para outro, a ainda estudante de relações internacionais acabou passando três meses sem emprego, vivendo em São Paulo, e se complicou financeiramente pela primeira vez. “Não consegui pagar minhas contas e fiquei com uma dívida no banco que só consegui pagar em 2014.”

Com o nome sujo, Ana vivenciou a experiência de muitos outros jovens no Brasil. De quase 20% deles, para ser mais exata, segundo o SPC Brasil. “Quando o banco me procurou, fiz um acordo, mas não foi uma boa negociação. Eu não entendia nada, só queria limpar o meu nome e seguir adiante.”

Ao terminar o curso, no final de 2013, a recém-formada deu início à uma história de altos e baixos com o orçamento. “As coisas apertaram de verdade quando comecei a pagar todas as minhas contas. Eu nunca soube lidar com dinheiro e preferia fingir que não tinha um problema. Hoje, vejo que há mulheres com muito menos privilégios do que eu, mas com uma vida financeira melhor.”

Além de encontrar um lugar no mercado, para muitos jovens – principalmente os que não precisaram assumir grandes responsabilidades financeiras até a faculdade – essa é também a hora de encarar o desafio de cuidar do dinheiro. Entre 2014 e 2015, Ana perdeu o emprego duas vezes e passou quatro meses na busca por vagas.

“Essa foi uma fase em que me descontrolei. Via o dinheiro sair e não sabia o que fazer. Para ajudar, minha gata ficou doente e precisei gastar mais para cuidar dela. Fiquei com vários cartões no vermelho, sempre devendo para alguém, jogando as contas de um lado para outro.”

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Entre melhores e piores experiências profissionais, vieram também diversas escolhas financeiras impensadas. Como Ana, muitas outras pessoas da sua idade relatam uma relação conflituosa com o consumo: 77% afirmam que já se arrependeram ao comprar algo que não precisavam, 33% admitem comprar mais do que o planejado e 41% preferem parcelar as compras mesmo quando o valor cheio cabe no bolso, diz o SPC Brasil.

“Eu sempre soube que precisava mudar minha vida financeira. Fiquei desesperada, não havia um dia em que não pensasse nisso, mas preferia fugir.” No começo de 2015, ela criou forças para começar a colocar a vida nos eixos: fechou contas no banco, concentrou todas as transações em uma e cancelou os cartões de crédito – responsáveis pelos problemas financeiros de outros 77% dos endividados, segundo o CNC.

“Em 2016, fiquei 100% independente, pagava tudo que era meu: casa, academia, comida do cachorro, tudo. Mesmo assim, esquecia que tinha contas a vencer e gastava a mais, vivia sempre um pouco no vermelho.”

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Nesse momento, Ana havia conquistado um bom salário, mas mantinha uma relação estressante de trabalho e continuava patinando nas finanças. Enquanto encarava o excesso de funções, um ambiente profissional que a desmotivava e uma grande diferença salarial entre homens e mulheres na empresa, teve também o seu carro furtado. “Estava em uma fase ruim e usei todo o valor do seguro viajando e pagando o cartão de crédito. Fiz uma bagunça, mas percebi que realmente era hora de mudar: de emprego e estilo de vida.”

Prestes a começar o mestrado, indo morar com o namorado e feliz como professora de inglês, seu saldo negativo ainda soma uma conta de celular atrasada e dívidas em dois cartões de crédito. A atitude, por outro lado, é outra. “O ano passado abriu minha cabeça de várias maneiras. Consigo ver como o descontrole financeiro influenciou a minha vida. Tenho consciência de como as coisas poderiam ser diferentes hoje se tivesse feito melhores escolhas”, avalia.

Como em qualquer aprendizado, a educação financeira precisa ser conquistada passo a passo. Ana cancelou cartões, está tentando aprender sobre finanças e mudar sua relação com o consumo. “No começo foi difícil entender que não iria me organizar da noite para o dia. Mas também é muito gratificante ver que dá para mudar. Quero ter tranquilidade e pagar o que ainda devo, para conquistar meus planos no futuro.”

 

Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal

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Mariana Ribeiro

Jornalista com sotaque e alma do interior. Longe das finanças, passa o tempo atrás de música brasileira, rolês baratos e ônibus vazios. Acredita que o mundo seria outro se as pessoas tentassem se ver.
Fale comigo! :) mariana@financasfemininas.com.br

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